A SpaceX, empresa de Elon Musk, elevou em até cinco vezes o custo da Starlink, serviço de internet via satélite, usada por drones militares dos Estados Unidos durante a guerra contra o Irã, segundo uma reportagem da agência de notícias Reuters. Essa decisão gerou atritos com o Pentágono e expôs a dependência americana da rede de Musk, que é um antigo aliado do ex-presidente Donald Trump. A divergência também envolveu negociações para fornecer internet à população iraniana durante apagões de comunicação impostos pelo governo local, reacendendo preocupações dentro do Departamento de Defesa sobre a falta de alternativas à Starlink.
O impasse começou após o início da campanha militar americana contra o Irã, em 28 de fevereiro. De acordo com a Reuters, executivos da SpaceX argumentaram a integrantes do Pentágono que as Forças Armadas americanas estavam pagando menos do que deveriam pelo uso militar da Starlink em drones de ataque LUCAS, um modelo de baixo custo comparável aos drones Shahed usados pelo Irã. Até então, o governo americano desembolsava cerca de 5 mil dólares (mais de R$ 25 mil) por conexão de terminal utilizada nos equipamentos.
A SpaceX alegou, porém, que o tipo de operação militar realizada exigia um serviço mais sofisticado, equivalente a um plano voltado para aviação, e elevou o valor para aproximadamente 25 mil dólares (cerca de R$ 126 mil) por terminal. Autoridades americanas chegaram a argumentar que a cobrança mais alta havia sido criada para aeronaves convencionais, e não para drones kamikazes que utilizavam conexão via satélite durante períodos curtos, de minutos ou poucas horas. Apesar das objeções, o Departamento de Defesa acabou aceitando o reajuste.
Segundo documentos revisados pela Reuters, a mudança quase dobrou o custo operacional de cada unidade do drone LUCAS, que inicialmente custava cerca de 30 mil dólares (aproximadamente R$ 151 mil) por equipamento. Desde a invasão à Ucrânia, em fevereiro de 2022, a Starlink se transformou em uma peça central da guerra moderna, permitindo comunicação segura, transmissão de dados e coordenação de operações em regiões remotas. A tecnologia é usada em drones de ataque, embarcações não tripuladas, sistemas de vigilância e equipamentos militares operados em ambientes sem infraestrutura tradicional de telecomunicações.
Hoje, a SpaceX opera uma constelação de aproximadamente 10 mil satélites — mais de 60% dos equipamentos ativos em órbita, superando com ampla vantagem concorrentes como OneWeb e o projeto de internet via satélite da Amazon. Para o Pentágono, a companhia mantém ainda um sistema específico voltado à defesa, chamado Starshield, criado em acordo firmado em 2023. A estrutura combina satélites comerciais da Starlink com uma rede mais protegida voltada a operações militares.
Segundo documentos financeiros citados pela Reuters, cerca de 20% da receita da SpaceX vem do governo americano. Apesar disso, a empresa ocupa uma posição incomum entre fornecedoras militares: ao contrário de contratadas tradicionais de defesa, não depende exclusivamente de contratos públicos, sustentando seu crescimento também em mercados comerciais bilionários. Os atritos entre o Pentágono e a SpaceX não ficaram restritos aos drones militares.
Autoridades americanas também negociaram com a empresa um plano para oferecer internet diretamente a celulares de cidadãos iranianos, em uma tentativa de contornar bloqueios de comunicação impostos pelo governo do Irã. A proposta ganhou força após autoridades iranianas confiscarem terminais Starlink que haviam entrado no país e ampliarem o uso de equipamentos de interferência de sinal. A tecnologia discutida permitiria conexão semelhante a uma rede 5G, dispensando antenas físicas instaladas em solo.
Segundo documentos revisados pela Reuters, a SpaceX propôs cobrar até 500 milhões de dólares (R$ 2,5 bilhões) para implementar o sistema, além de uma taxa operacional mensal de 100 milhões de dólares (R$ 504 milhões). A agência não conseguiu confirmar se houve acordo. Elon Musk contestou as informações em uma publicação no X, rede social da qual é dono, classificando o conteúdo como "falso", sem detalhar quais pontos contestava.
Ele também afirmou que o sistema civil da Starlink teria sido usado inadequadamente para fins militares e reforçou que existe uma rede separada, a Starshield, voltada especificamente para operações do governo americano. O Pentágono também rebateu partes da reportagem, mas não comentou diretamente os valores cobrados pela SpaceX. Em nota, o Departamento de Defesa afirmou que busca ampliar a concorrência no mercado de comunicação via satélite.