O Papa Leão XIV, eleito em 8 de maio de 2025, fez história ao adotar um nome que não era utilizado desde Leão XIII, que faleceu em 1903. Sua escolha não foi meramente simbólica; ela reflete uma intenção clara de enfrentar os desafios contemporâneos, especialmente a inteligência artificial (IA), da mesma forma que seu antecessor abordou a Revolução Industrial. Em 15 de maio de 2026, exatamente 135 anos após a publicação da encíclica Rerum Novarum, Leão XIV assinou sua primeira encíclica, intitulada Magnifica Humanitas, que se concentra na proteção da dignidade humana na era da IA.
A escolha da data não foi acidental, mas sim uma estratégia deliberada para estabelecer um diálogo entre as transformações sociais e econômicas do passado e do presente. A Rerum Novarum, publicada em 1891, foi um marco na doutrina social da Igreja, criando um corpus que abordava as condições da classe trabalhadora em um mundo em rápida transformação. Leão XIII, ao elaborar esse documento, buscou uma resposta que não se alinhasse nem ao socialismo nem ao liberalismo, defendendo a propriedade privada como um direito natural e a justiça social como um princípio fundamental.
A nova encíclica de Leão XIV, Magnifica Humanitas, começa reconhecendo essa herança. No terceiro parágrafo, o Papa expressa sua gratidão pelo legado de seu predecessor e estabelece uma analogia entre as "coisas novas" do século XIX e as atuais, que incluem a digitalização e a IA. Essa comparação sugere que estamos diante de uma transformação tecnoeconômica de magnitude civilizacional, semelhante àquela provocada pela Revolução Industrial.
Dados do World Economic Forum de 2025 indicam que 41% dos empregadores globais planejam reduzir suas equipes devido à adoção da IA. Empresas como Amazon, Microsoft, Meta e Google já implementaram cortes significativos em suas forças de trabalho. O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, afirmou que a geração de empregos nos Estados Unidos está estagnada, em parte devido à automação.
Leão XIV, em sua análise, observa que, enquanto no passado eram os Estados que guiavam a inovação, hoje são as grandes corporações privadas que dominam esse espaço. Essa mudança na configuração de poder exige uma atualização da doutrina social da Igreja, que deve agora se adaptar a essa nova realidade. Um dos princípios centrais abordados na Magnifica Humanitas é o da subsidiariedade.
Tradicionalmente, esse princípio protegia indivíduos e comunidades da absorção pelo Estado. No entanto, Leão XIV inverte essa lógica, argumentando que a subsidiariedade deve ser aplicada contra o poder concentrado das grandes empresas tecnológicas. Essa atualização é um exemplo de como a Igreja pode manter sua tradição enquanto responde a novos desafios.
Além disso, a encíclica aborda a questão da propriedade dos dados e algoritmos, afirmando que esses bens não podem ser deixados exclusivamente nas mãos de particulares. Leão XIV destaca que a propriedade dos dados deve ser regulamentada, pois são frutos da contribuição coletiva e não devem ser monopolizados por poucos. Outro ponto importante levantado pelo Papa é a opacidade dos algoritmos, que pode perpetuar discriminações sem que as injustiças sejam facilmente identificáveis.
Essa questão é uma continuação do debate sobre as "estruturas de pecado" que João Paulo II mencionou na década de 1980, agora ampliada pela complexidade dos sistemas digitais. Um dos trechos mais impactantes da Magnifica Humanitas é quando Leão XIV menciona a necessidade de reconhecer as novas formas de dependência criadas pela economia digital. Ele faz uma conexão histórica ao lembrar que foi Leão XIII quem condenou a escravidão em 1888, reconhecendo a ferida na memória cristã e pedindo perdão em nome da Igreja.
O novo Papa enfatiza que, se não quisermos repetir os erros do passado, devemos ser firmes em denunciar as injustiças contemporâneas. A Magnifica Humanitas não é apenas uma reflexão sobre o passado, mas um chamado à ação para todos os setores da sociedade. Leão XIV pede aos pais que protejam seus filhos da exposição precoce a conteúdos digitais prejudiciais, às escolas que recuperem a importância da formação lenta e aos trabalhadores que se adaptem às novas realidades do mercado de trabalho sem aceitar a precariedade como norma.
A encíclica também convoca empresários e programadores a adotar critérios éticos em suas práticas, reconhecendo a responsabilidade que têm na construção de um futuro mais justo. Para os cidadãos comuns, o Papa pede que se tornem mais conscientes e questionem quem está pagando o preço pelas inovações tecnológicas que consomem. Em suma, a Magnifica Humanitas é um documento que busca estabelecer um diálogo entre as tradições da Igreja e os desafios contemporâneos, reafirmando a importância da dignidade humana em um mundo em rápida transformação.
A tarefa dos fiéis, segundo Leão XIV, é discernir o que protege a pessoa humana e o que a reduz, mantendo viva a tradição da Igreja enquanto se adapta às novas realidades do século XXI.