Trump e a nova ordem multipolar: desafios globais

Por Autor Redação TNRedação TN

O historiador e político canadense Michael Ignatieff reflete sobre a reconfiguração do cenário geopolítico desde a morte da ordem unipolar — marcada pelo colapso da União Soviética e o fim da Guerra Fria — e as potenciais consequências de um mundo regido por uma nova ordem multipolar, onde países como EUA, China e Rússia seriam os protagonistas.

A ordem mundial unipolar, que prevaleceu por mais de 30 anos, encontra-se em crise. Hoje, essa realidade é questionada não apenas por adversários globais como a China e a Rússia, mas também por setores da própria sociedade americana. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, comentou recentemente: "Não é normal que o mundo tenha uma potência unipolar. Isso era uma anomalia, um produto do fim da Guerra Fria, mas finalmente vamos chegar a um ponto em que vamos ter um mundo multipolar, com potências em diferentes partes do planeta".

Entrevistado pela BBC News Mundo, Ignatieff analisou como Donald Trump, em um possível segundo mandato, tem demonstrado uma abordagem imperialista, manifestada nas tentativas de recuperar territórios como a Groenlândia e o Canal do Panamá.

O conluio das potências

Segundo Ignatieff, Trump representa uma figura complexa e difícil de interpretar, comparando-o a um "enganador". "Ele costuma mudar tudo de cabeça para baixo para gerar confusão e surpresa, tornando desafiador discernir se há uma estratégia sólida por trás de suas ações ou se trata apenas de improvisações visando resultados imediatos", explica.

Nos últimos anos, as relações dos EUA com aliados como o Canadá e a Europa têm se tornado tensas, enquanto o cumprimento de certos compromissos de defesa e segurança está em questão. Ignatieff argumenta que a Europa, por exemplo, deve se preparar para se defender e construir uma força militar autônoma, ao invés de depender exclusivamente dos EUA.

A fatídica dependência militar e econômica

Para Ignatieff, a dependência da Ucrânia em relação à assistência militar americana a torna vulnerável à pressão de Trump. Ele expressa preocupações sobre o futuro do país e a possibilidade de um novo acordo que possa sacrificar a soberania ucraniana em prol de interesses da Rússia. "A perspectiva de que Trump possa forçar a Ucrânia a aceitar um acordo indesejado traz alarmes à Europa. A dependência ucraniana da ajuda militar americana poderá resultar em um destino sombrio, enquanto o cenário de uma nova Cortina de Ferro se farmatiza na Europa Oriental".

Uma nova dinâmica geopolítica

Ignatieff acredita que os países europeus precisam, urgentemente, considerar o aumento do investimento em defesa e até a possibilidade de reintroduzir o serviço militar obrigatório em vários países, como forma de garantir suas próprias seguranças, e não mais depender da proteção americana. "Se contarmos com a segurança e a proteção que os EUA nos proporcionavam, devemos agora mudar nossa abordagem e nos preparar para nos defendermos", afirma.

Sobre a ascensão do multipolarismo, Ignatieff sugere que uma colaboração entre as potências pode gerar um ambiente instável. Ele reflete: "Trump acredita que pode fazer acordos com qualquer regime, sem levar em consideração a natureza autoritária de países como a China e a Rússia. Isso poderá resultar em conflitos, uma vez que os regimes autocráticos geralmente não respeitam limites e poderiam expandir suas influências de forma agressiva".

A pergunta pela paz

Considerando esta nova ordem, ele afirma que a paz não será simplesmente alcançada através de acordos que dividem o mundo entre potências autoritárias. "O pressuposto de que ofertar influência a países como a China e a Rússia garantirá a paz é um erro estratégico", alerta. A dicotomia entre valores democráticos e regimes autoritários representa um conflito intrínseco que exige uma análise provocativa dos caminhos que esses países poderão seguir.

À medida que as potências se reconfiguram, Ignatieff sugere que um mundo com múltiplos centros de poder poderá trazer não apenas desafios, mas também a necessidade de adaptação e resistência por parte de países que buscam solidificar suas soberanias e identidades no cenário internacional. "Para evitar a exclusão, países da América Latina devem desenvolver economias robustas e sistemas políticos sólidos, a fim de resistir à pressão das potências dominantes".

Eles deverão buscar parcerias e fortalecer laços com outras nações que compartilhem visões comuns e não se sujeitem a divisões imposta por potências. Aprender a se defender pode ser a chave para garantir uma voz significativa no novo cenário geopolítico.

A reflexão e análise de Ignatieff colocam em pauta a necessidade de repensar a segurança, as alianças e o poder sob um novo prisma, em que a história nos ensina sempre a importância de questionar o status quo e a ser independentes nas decisões globais.

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Tags: Geopolítica, EUA, China, Rússia, Segurança Fonte: www.terra.com.br