Brasil Mostra Facetas Fóssil em Evento Internacional
Às vésperas da COP30, programada para novembro, o Brasil decidiu adotar uma postura claramente petrolífera ao conceder licença exploratória para a perfuração na Foz do Amazonas, um ecossistema já fragilizado e vulnerável a impactos ambientais irreversíveis.
Licença para Perfuração e Pressões Políticas
O poço denominado Morpho, que será perfurado por cinco meses pela Petrobras, levanta sérias preocupações. A entidade não apresentou estudos conclusivos que garantam a segurança contra vazamentos, mesmo em uma área rodeada por ecossistemas que não têm capacidade de mitigação.
A pressão política aumentou quando se aproximou a data de expiração do aluguel da sonda que realizará os trabalhos. A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, adiantou que "se não começarmos a perfurar até o dia 21 de outubro, essa sonda pode ser retirada da locação, e o processo teria que recomeçar do zero".
A Degradação Ambiental e os Riscos Envolvidos
Além das questões logísticas, a licença de pesquisa parece ter outro objetivo: agradar ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que possui interesses na região. A exploração pode alcançar extração de até 30 bilhões de barris de petróleo, gerando aproximadamente 13 bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera, segundo estimativas.
A Petrobras destinou cerca de US$ 3 bilhões de seu planejamento estratégico para a perfuração de 15 poços na Margem Equatorial, prometendo operar com "segurança, responsabilidade e qualidade técnica". No entanto, a realidade aponta para riscos imediatos e alta possibilidade de danos ambientais.
Voce Está Acompanhando as Vozes da Ciência?
A área de exploração está cercada por ecossistemas frágeis. A pesquisadora Yara Schaeffer-Novelli, do Instituto Oceanográfico da USP, expressou preocupação em uma nota técnica ao Ibama, ressaltando que a complexidade do local não foi considerada no estudo de impacto ambiental. Em caso de vazamento, as estratégias de mitigação seriam complicadas e ineficazes.
De acordo com Schaeffer-Novelli, as afirmações da Petrobras sobre suas capacidades de resposta a emergências são insuficientes. O estudo negligencia o risco real de derramamento de óleo na costa, um aspecto crítico para qualquer avaliação de impacto ambiental, que deve levar em conta as características da locação.
O Impacto sobre Ecossistemas Protegidos
A Foz do Rio Amazonas abriga áreas especialmente protegidas que podem ser severamente afetadas pela exploração de petróleo e gás. Apesar de esperanças de que o Brasil conseguisse destacar sua biodiversidade e vastas florestas durante a COP30, a decisão tomada reflete um compromisso com combustíveis fósseis, colocando em risco o status ambiental da nação.
Essa escolha demonstra que o Brasil está se lançando em uma empreitada tecnológica obsoleta, de riscos ambientais imensos e com custos humanitários incalculáveis, por nada justificável.
*Carlos Bocuhy é presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental