Estudo revela genética por trás do uso recreativo de Cannabis
Um estudo recente publicou na revista Neuropsychopharmacology que aponta a predisposição genética para experimentar maconha está mais ligada à curiosidade e à busca por novas experiências do que à tendência ao vício. Essa pesquisa, realizada por cientistas da Universidade de Yale, analisou dados genéticos de mais de 250 mil indivíduos, estabelecendo uma conexão entre o uso de Cannabis e o gene CADM2, que tem relação com comportamentos exploratórios.
Tradicionalmente, o debate sobre o uso de Cannabis é polarizado entre aqueles que enxergam a planta como um risco à saúde e aqueles que a defendem como um elemento de liberdade ou medicina. A estigmatização do uso muitas vezes está ligada à associação direta entre o consumo e a dependência. O estudo visa desmistificar essa relação, ao explorar a base genética dos usuários de maconha.
Os cientistas investigaram a genética do uso de Cannabis ao longo da vida (CanLU) e descobriram que experimentar maconha não é sinônimo de desenvolver dependência. Em vez disso, a pesquisa mostrou que a impulsividade positiva e o desejo de explorar novos horizontes estão mais interligados ao uso ocasional.
A pesquisa identificou o gene CADM2, conhecido por sua relação com comportamentos exploratórios e impulsividade. Essa variante genética se mostrou fortemente associada ao uso vitalício de Cannabis, reforçando a ideia de que os mesmos mecanismos que impulsionam a busca por novas experiências também influenciam a decisão de experimentar substâncias psicoativas. Portanto, o que foi identificado não é um "gene da maconha", mas sim um "gene da curiosidade" — crucial para a habilidade humana de explorar e aprender.
Outro ponto ressaltado no estudo foi a comparação entre a genética do uso vitalício e a genética da dependência (CanUD). Apesar de uma correlação moderada (rg = 0,58) entre ambos, as evidências sugerem que o uso ocasional e a dependência estão relacionados a locais genéticos diferentes. Essa descoberta é fundamental para desassociar a ideia de que todos os que usam Cannabis estão predispostos ao vício.
Além disso, enquanto indivíduos dependentes estão frequentemente relacionados a transtornos psiquiátricos e problemas de sono, aqueles que usam Cannabis ocasionalmente costumam ter traços principais exploratórios e, surpreendentemente, níveis de escolaridade mais altos. Isso sugere que a percepção social e cultural do uso de Cannabis está mudando, e que sua associação com indivíduos bem-informados pode estar aumentando.
Este estudo tem importantes implicações tanto para a medicina quanto para a política pública. Primeiramente, porque a resposta individual ao uso de Cannabis é influenciada por fatores genéticos, o que pode afetar a forma como cada paciente responde ao tratamento com produtos canabinoides. Assim, a compreensão dessa base genética pode abrir portas para personalizar tratamentos e melhorar a eficácia dos mesmos.
Em segundo lugar, a distinção entre uso e abuso, ancorada em fundamentos biológicos, pode contribuir para a diminuição do estigma associado ao consumo da planta, especialmente em contextos terapêuticos. O uso recreativo de Cannabis e a predisposição ao vício são expressões de traços humanos distintos que devem ser abordados com nuance e empatia.
Os achados do estudo encorajam um olhar mais abrangente e informativo sobre a Cannabis, sugerindo que políticas públicas também devem evoluir para refletir essas novas compreensões. A regulação e as estratégias de prevenção devem considerar as diferenças entre usuários ocasionais e dependentes, permitindo uma abordagem mais segura e eficaz em saúde pública.
Em resumo, entender a biologia da curiosidade humana e os fatores que influenciam o uso de Cannabis poderá trazer novas perspectivas tanto para o debate social quanto para as práticas de saúde relacionadas à substância.
*Fabricio Pamplona é doutor em Farmacologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).