A ameaça da extrema direita sobre as mídias públicas na Europa
O discurso da extrema direita está repleto de alvos, entre eles imigrantes, impostos e a esquerda em geral, mas uma nova prioridade emergiu: as corporativas de mídia de comunicação pública. Os objetivos são claros: reduzir a confiança em instituições fundamentais para a informação, juntamente com a imprensa independente, que também enfrenta ataques constantes.
Se conseguirem chegar ao poder, a promessa é estrangular essas corporações, muitas das quais possuem grande prestígio internacional, ou utilizá-las para seus próprios fins. O caso recente da BBC britânica e Donald Trump, que acusou a emissora de manipular suas declarações, é um exemplo claro, mas está longe de ser o único.
No Reino Unido, o partido e a extrema direita, liderados por Nigel Farage, têm atacado a BBC, instituição tradicionalmente reconhecida pela sua qualidade. Da mesma forma, partidos como Reagrupamento Nacional na França, AfD na Alemanha e Vox na Espanha também direcionam suas críticas às mídias públicas locais. Esse padrão de hostilidade se acentua com críticas cada vez mais contundentes, estendendo-se a várias frações da direita tradicional.
Segundo Luis Menéndez, responsável pela Federação Internacional de Jornalistas (IJF), a maior ameaça vem do leste europeu. Ele observa que essa onda não traz apenas um clima hostil, mas também uma enxurrada de desinformação e atividades que atacam o jornalismo livre e a democracia. Na Polônia, Eslováquia, Malta e, claro, Hungria, as interferências têm aumentado, especialmente sob o regime do primeiro-ministro ultraconservador Viktor Orbán, que tem exercido controle sobre a mídia pública.
Paolo Cesarini, diretor do Observatório Europeu de Mídias Digitais (EDMO), constatou que essas agressões têm paralelo com as que ocorrem em outras democracias ocidentais. Um exemplo claro é a pressão orçamentária que Trump exerce sobre a televisão e a rádio públicas nos EUA, levando ao fechamento da Corporação de Radiodifusão Pública. Em vários países europeus, especialmente na Itália, Polônia e Rumania, as agências de comunicação pública estão sob severa pressão em sua independência editorial.
Essas interferências políticas, cortes de orçamento e tentativas de centralização do controle têm levantado preocupações sobre a credibilidade das mídias públicas, que permanecem como uma das maiores defesas contra a concentração de poder na mídia privada. No entanto, elas são vulneráveis à retórica populista promovida por governos autoritários. A eficácia do Regulamento Europeu de Liberdade de Mídia, que visa proteger o ecossistema informativo, é uma esperança expressa por muitos especialistas.