Ilustrador de Curitiba busca autoconhecimento através da arte
Will Amaro, um renomado ilustrador de Curitiba, iniciou sua jornada de autoconhecimento ao trabalhar em 'Miguel, um artista autista', um livro infantil que retrata a história de Miguel, um artista que descobre sua neurodivergência. Esse projeto fez com que Will se identificasse com o protagonista, levando-o a procurar uma investigação clínica sobre sua própria condição neurodivergente.
Identificando-se com aspectos da sua infância, como a introspecção e o refúgio na arte, Will sentiu um impulso para entender melhor seu funcionamento emocional e psicológico. "Quando você entende que, na verdade, era o seu funcionamento que era diferente das outras pessoas, é como se você tirasse isso das costas e ficasse mais aliviado", compartilhou o ilustrador em uma entrevista.
Diagnóstico tardio do Transtorno do Espectro Autista
O neurologista Matheus Trilico, especialista em diagnóstico e acompanhamento do autismo em adultos, explica que a falta de acesso à informação e o estigma social muitas vezes contribuem para diagnósticos tardios. Estudos apontam que o autismo é frequentemente identificado na infância; entretanto, existem casos que só são reconhecidos na adolescência ou na vida adulta, principalmente no caso de pessoas com sintomas mais sutis.
Os dados mais recentes do Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam que cerca de 2,4 milhões de brasileiros têm diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista. Dessa totalidade, aproximadamente 1,3 milhão são adultos, o que destaca a questão do diagnóstico tardio na população.
A importância da literatura e da empatia no diálogo sobre o autismo
O livro 'Miguel, um artista autista', parte de uma coletânea de nove títulos publicados pelo selo Primeiros Saberes da Editora Intersaberes, visa estimular o autoconhecimento e a empatia, não apenas para aqueles que vivem a neurodivergência, mas também para suas famílias e amigos. Priscila Pereira Boy, autora da obra, reforça que a literatura pode romper estereótipos e preconceitos, proporcionando um novo olhar sobre a normalidade e o potencial de pessoas neurodivergentes.
"A gente quebrar os estereótipos, quebrar os preconceitos, trazer para o Will a possibilidade de ele se enxergar com olhos de generosidade, com olhos de normalidade, se enxergar como alguém de potencial", enfatiza Priscila.
Amaro espera que sua experiência inspire outros a buscarem compreender sua própria realidade. "Eu imagino que, com o livro do Miguel, essas crianças possam ter uma trajetória, talvez, menos árdua daqui para frente", conclui.
Desafios futuros e a necessidade de suporte para adultos neurodivergentes
Apesar dos avanços no reconhecimento do autismo, Trilico destaca a necessidade de um suporte continuado às pessoas que crescem e se tornam adultas, uma vez que ainda há um foco maior na infância. A questão de quem cuidará dessas pessoas quando envelhecerem ainda precisa ser debatida, ressaltando a importância do acompanhamento multidisciplinar no tratamento e na compreensão do autismo ao longo da vida.
Através de livros como 'Miguel, um artista autista', a esperança é que futuras gerações desenvolvam um entendimento mais amplo e empático sobre a neurodivergência, contribuindo para um mundo mais inclusivo.
'Miguel, um artista autista', publicado pelo selo Primeiros Saberes — Foto: Mariah Colombo/g1