A Internacional Ultraconservadora: Ascensão da Direita Radical
A direita radical, populista e nacionalista, passou de uma posição marginal para uma normalização global, expandindo-se com uma rede organizada que desafia os consensos liberais. Recentemente, o recém-eleito presidente do Chile, José Antonio Kast, simboliza essa tendência, demonstrando como esses movimentos se tornaram parte da política cotidiana.
Um relatório do V-DEM Institute, da Universidade de Gotenburgo, destaca uma "onda mundial de autocratização", com 88 democracias e 91 autocracias, um cenário que ilustra a instabilidade e a transformação do equilíbrio político global. C cerca de 72% da população mundial vive agora sob regimes autocráticos, evidenciando uma mudança radical com poucas precedentes.
O crescimento de ideologias nacionalistas, autoritárias e populistas se observa globalmente, desde o Japão com o partido Sanseito, passando pela Turquia com Recep Tayyip Erdogan e chegando à Índia sob Narendra Modi. Na Europa, figuras como Viktor Orbán, que há 15 anos está no poder na Hungria, e Giorgia Meloni, na Itália, têm consolidado suas posições em regimes considerados ultraconservadores.
No contexto americano, o movimento MAGA (Make America Great Again) tem dominado o Partido Republicano, sob a liderança de Donald Trump, que atuou como uma força reagente significativa. As forças ultraconservadoras estão em constante crescimento na América Latina, com a recente ascensão de Javier Milei na Argentina e Kast no Chile, espécies de herdeiros do precedente governo Trump.
Fatores do Sucesso
Os sucessos da ultradireita podem ser atribuídos a crises que abalaram a sociedade, como a Grande Recessão de 2008, a crise dos refugiados entre 2015 e 2016, a pandemia de Covid-19 e a guerra na Ucrânia. De acordo com Gilles Ivaldi, professor de Sciences Po, essas crises atuam como catalisadores, intensificando o ressentimento contra as elites políticas e os imigrantes.
A volatilidade econômica, a inflação e as inseguranças no mercado de trabalho aprofundam esse descontentamento. O discurso da direita radical é baseado em elementos como o preconceito contra a imigração, a insegurança econômica e a defesa de valores tradicionais, muitas vezes em oposição a movimentos progressistas e feministas.
Trumpismo na América Latina
A ascensão da ultradireita na América Latina começou em 2019, com Jair Bolsonaro, no Brasil, e Nayib Bukele, em El Salvador, que refletem uma resposta a governos de esquerda que enfrentaram problemas econômicos e escândalos de corrupção. Segundo o sociólogo argentino Ariel Goldstein, essa nova direita se identifica fortemente com o legado do governo de Donald Trump, especialmente em um contexto geopolítico onde a rivalidade entre EUA e China tem influenciado os Governos da região.
As elites ultraconservadoras têm encontrado apoio em figuras como Trump, que já fez promessas financeiras ao presidente argentino Javier Milei, além de ameaçar tarifas ao Brasil, gerando uma nova dinâmica de alianças políticas.
Conexões Internacionais e Medios de Comunicação
A colaboração entre as diferentes facções da direita radical se intensifica, com diversos níveis de cooperação, desde conexões entre partidos até redes de organizações não partidárias que promovem a troca de ideias. Essa rede se estende até plataformas de mídia que amplificam suas mensagens, como Fox News nos EUA e CNews na França.
Em grande parte, esse crescimento se deve à normalização do discurso ultraconservador por parte dos partidos tradicionais que, ao adotarem retóricas anti-imigração, acabam legitimando ideais antes considerados inaceitáveis. Em várias nações, observou-se uma perda de resistência à cooperação entre direitas tradicionais e extremistas, como evidenciado por alianças explícitas na Europa.
Um Futuro Incerto
Os analistas expressam preocupações sobre a normalização da ultradireita, que agora não é vista apenas como uma interferência externa, mas como uma força a ser considerada nas dinâmicas políticas locais e regionais. Com o cenário atual, temas como imigração, desigualdade econômica e mudanças climáticas continuam a ser pontos centrais na agenda política, indicando que as dificuldades enfrentadas por democracias liberais podem estar longe de uma resolução definitiva.
Para muitos especialistas, o momento atual ainda não atinge seu pico máximo, sugerindo que a resiliência das instituições democráticas e dos cidadãos será crucial para lidar com esse fenômeno crescente da ultradireita em diversas partes do mundo.