Diretora de A voz de Hind Rajab fala sobre tragédia em Gaza
Kaouther Ben Hania, diretora do aclamado filme "A voz de Hind Rajab", reencena o assassinato de uma menina de 5 anos em Gaza, buscando destacar o "fracasso humano" diante das atrocidades da guerra. O longa, que mistura gravações reais, investigações e dramatização, foi recebido com elogios no Festival de Veneza, onde conquistou o Grande Prêmio do Júri e se tornou um dos favoritos para a temporada de prêmios internacionais.
A diretora conheceu a história de Hind Rajab, que foi assassinada pelas Forças de Defesa de Israel, através de uma gravação que capturava sua voz pedindo socorro dentro de um carro crivado de balas. Cercada pelos corpos de sua família, a menina aguardava ajuda de uma equipe humanitária que, tragicamente, também se tornou alvo. "Comovida e indignada", Ben Hania decidiu criar um filme que ecoasse a voz da menina e chamasse atenção para a real situação enfrentada pelos palestinos.
Uma narrativa de empatia e resistência
O filme já está programado para ser lançado nos cinemas brasileiros, marcando exatamente dois anos após a tragédia de Hind. Ben Hania acredita que o cinema tem o poder de gerar empatia e despertar a consciência sobre os temas delicados e controversos do conflito israelo-palestino.
A voz de Hind não é apenas parte da história dela, mas pertence à História e deve ser ouvida.
Apesar dos desafios na distribuição nos Estados Unidos, a diretora conta que a resistência que seu filme enfrenta é esperada, dado o contexto sensível da história. "Já sabia que haveria uma luta para distribuir meu filme, mas tinha esperanças de que talvez um grande estúdio tivesse a coragem de distribuí-lo. Não foi o caso", explica.
Conectando a memória ao Cinema
"A voz de Hind Rajab" não se limita a ser um relato biográfico, mas mostra a cruel realidade que muitos palestinos enfrentam todos os dias. A diretora combina a realidade de arquivos de áudio e imagens da tragédia com dramatização, trazendo uma nova perspectiva sobre um evento que choca e comove.
O longa busca resgatar a memória da menina enquanto homenageia os esforços dos trabalhadores humanitários que atuam em meio ao conflito. Ao utilizar a voz real de Hind, o filme desafia as reações do público, convidando-o a enfrentar uma verdade muitas vezes ignorada.
Reflexão e descontentamento
Ben Hania reconhece que algumas reações ao uso da gravação da voz de uma criança são repletas de desconforto e até raiva. Ela enfatiza que, embora o cinema seja um escape, a realidade muitas vezes é muito mais perturbadora. "Discursos e reflexões são necessários para confrontar essas histórias que pertencem à História", ressalta.
O filme, portanto, se propõe como uma chamada à ação, um convite à reflexão sobre os impactos do conflito e a necessidade de reconhecimento das vidas perdidas e da dor coletiva. Ao abordar um tema tão complexo quanto a violência em Gaza, "A voz de Hind Rajab" promete ser tanto uma obra-prima cinematográfica quanto um importante manifesto social.