Apelo de Mulher na Nova Zelândia Levanta Debate sobre IA
No último mês, uma mulher na Nova Zelândia foi condenada a mais de três anos de prisão por incendiar uma casa alugada e agredir um policial. Embora esse evento não fosse exatamente o tipo de notícia que gera interesse internacional, um detalhe específico tornou o caso bastante notório. A juíza responsável pela sentença se deparou com uma particularidade em relação à carta de desculpas escrita pela ré de 37 anos: ela utilizou ferramentas de inteligência artificial para elaborá-la.
Após ser condenada por incêndio, roubo, agressão e resistência à polícia, Michae Ngaire Win enfrentou a crítica do juiz Tom Gilbert, que se mostrou "não impressionado" com os pedidos de desculpas que ela enviou ao proprietário da casa e aos socorristas. Avaliando a situação, o juiz observou que Win, durante o incidente, desferiu mordidas em um policial e fez comentários ostensivos sobre ter AIDS.
Após ponderar sobre o uso da IA, o juiz Gilbert revelou ter produzido, por curiosidade, duas cartas de desculpas a partir de ferramentas de IA. Em suas palavras, “depois de digitar rapidamente em dois programas de A.I., ficou imediatamente evidente que as cartas apresentadas eram geradas por computadores, embora com algumas alterações.”
Embora o juiz tenha demonstrado uma certa abertura para a utilização de tecnologias, ele deixou claro que "considerar a autenticidade do arrependimento de um indivíduo” apenas por meio de uma carta gerada por IA “não significa muito para mim”. Essa observação desperta a discussão sobre a capacidade humana de realmente assumir a autoria de algo produzido por um chatbot de IA.
- Enquanto alguns defendem que a utilização de IA pode ser válida desde que fornecido um bom direcionamento, outros argumentam que isso não permite ao usuário reivindicar a autoria do conteúdo gerado. A equipe do Escritório de Direitos Autorais dos EUA reforça essa postura ao afirmar que as obras criadas por IA não podem ser registradas sob a legislação americana.
A discussão em torno da autorização e autenticidade no uso da IA continua e se torna cada vez mais relevante. Crianças frequentemente utilizam ferramentas como o ChatGPT para concluir tarefas escolares, levantando a pergunta sobre como será a ética literária em um futuro próximo. A difusão da IA faz parecer que o gênio já saiu da lâmpada, mas ainda há um longo caminho a trilhar até que a sociedade estabeleça normas em relação a esse uso.
Por ora, é aconselhável não depender excessivamente de ferramentas de IA disponíveis ao consumidor para questões que são verdadeiramente importantes, como na redação de documentos legais e na administração de medicamentos a entes queridos. A tentativa de utilizar IA para redigir um pedido de desculpas judicial pode ter parecida como uma solução segura para a mulher na Nova Zelândia, porém é imperativo considerar as consequências caso seja descoberta. Afinal, um “sinto muito” soa menos sincero quando o juiz sabe que você não redigiu a carta por conta própria.
Um relatório pré-sentença havia sugerido que a mulher não cumprisse pena de prisão por seu crime de incêndio, mas sim que fosse submetida a uma detenção domiciliar. Contudo, o juiz decidiu por uma sentença de 27 meses de prisão.