Naufrágio no Amazonas gera alerta sobre segurança fluvial
O naufrágio de uma lancha no Amazonas expôs problemas históricos das viagens fluviais no Norte do Brasil, onde comunidades ribeirinhas dependem quase exclusivamente do transporte aquaviário para se deslocar entre as grandes distâncias da região. O acidente em um dos trechos com mais ocorrências de naufrágios no Rio Amazonas deixou ao menos três mortos e cinco desaparecidos, com 71 pessoas resgatadas com vida, após a embarcação Lima de Abreu XV afundar durante o trajeto entre Manaus e Nova Olinda do Norte, na última sexta-feira.
Levantamento do professor Carlos Padovezi, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), mostra que, desde os anos 1970, foram registrados pelo menos 1.379 óbitos em incidentes nos principais rios da região, como Amazonas, Madeira, Solimões e Negro, além da Baía de Marajó. Não estão computadas mortes em embarcações de pequeno porte em acidentes que não envolvam outros veículos, tampouco aquelas por quedas na água.
Especialistas frisam que a região é marcada por um cenário de fiscalização frágil, embarcações precárias e riscos agravados pela crise climática. A pesquisa de Padovezi aponta que seis em cada dez acidentes aquaviários na região são causados por erro humano, que inclui falta de habilitação ou de treinamento adequado dos condutores, falhas de navegação e imprudência, além do uso de álcool durante a condução.
A professora Suanne Martins, da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), especialista em transportes hidroviários, destaca a gravidade da superlotação das embarcações:
"As pessoas viajam enlatadas como sardinhas, dormindo em redes, e são percursos longos. A superlotação é um problema sério na nossa região, pois não há efetivo de fiscalização da Capitania dos Portos na Amazônia Ocidental, e muitos comandantes burlam o sistema".
O condutor da Lima de Abreu XV, Pedro José da Silva Gama, chegou a ser preso em flagrante após o acidente, mas obteve liberdade após pagar fiança. Desde então, ele é considerado foragido, já que não se apresentou ao tribunal após a decretação de sua prisão preventiva.
Impactos das mudanças climáticas na navegação
Suanne Martins também observa que as mudanças climáticas vêm alterando significativamente as condições de navegação na Amazônia. As causas dos acidentes muitas vezes estão diretamente relacionadas a fatores meteorológicos, como ventos intensos, associados ao desmatamento. A redução da cobertura florestal diminui a "rugosidade" natural, que antes funcionava como barreira às rajadas de vento.
Além disso, a dinâmica das chuvas mudou, levando a estiagens mais severas seguidas de tempestades intensas. Esses fenômenos, por sua vez, criam obstáculos nas vias aquáticas, tornando as navegações ainda mais perigosas.
"O piloto precisa estar muito atento, respeitar limites de velocidade e conhecer profundamente o rio. Qualquer rajada ou onda mais forte pode se transformar em uma tragédia".
Medidas e soluções para a segurança
Para atenuar os problemas, o professor Padovezi defende um conjunto de medidas estruturais, como a implantação de um sistema de monitoramento de tráfego em tempo real na Amazônia e a ampliação da comunicação entre embarcações.
Além disso, ele sugere uma divisão de recursos que priorize a segurança da frota de transportes, incluindo:
- Instalação de tanques de colisão na proa;
- Reforço estrutural das embarcações;
- Sistemas que evitem a entrada de água em ondas fortes;
- Substituição gradual de embarcações de madeira por modelos mais seguros.
Padovezi ressalta que a transição para embarcações mais seguras pode encarecer o transporte, mas sustenta que é necessário discutir subsídios ao transporte regional, uma vez que muitos passageiros não conseguem arcar com custos mais altos.
Contexto dos dados de segurança na navegação
Dados da Marinha indicam que o problema da insegurança na navegação não se restringe à Amazônia. Desde o início do século, o Brasil registrou mais de 21 mil acidentes, resultando em 5.600 mortes até janeiro deste ano. Somente em janeiro de 2026, foram reportados 13 naufrágios e 13 colisões, as ocorrências mais frequentes. Esses incidentes envolvem uma gama de embarcações, desde canoas em rios amazônicos até lanchas de turismo.
Estatísticas de janeiro desse ano mostraram 21 vítimas fatais, com maior incidência em embarcações de pequeno porte. Recentemente, um barco com seis pescadores desapareceu após sair de Niterói (RJ) e não foi localizado. O crescimento do número de acidentes reforça a urgência de ações abrangentes para melhorar a segurança fluvial no Brasil.