Acordo encerra um dos maiores conflitos agrários do Brasil
O maior e mais antigo conflito fundiário do Paraná chegou ao fim com um acordo entre o governo federal e as empresas proprietárias, Rio das Cobras Ltda e Araupel S.A. Essa conciliação vai beneficiar mais de 3 mil famílias de agricultores situadas em Quedas do Iguaçu e Rio Bonito do Iguaçu, no oeste do estado, como foi informado pela Advocacia-Geral da União (AGU).
O conflito agrário envolvendo as terras da madeireira começou em 1996. Neste ano, mais de 12 mil homens, mulheres e crianças ocuparam parte da área da então madeireira Giacomet-Marodin, atualmente sob a denominação de Araupel. O acordo proporcionará que mais de 33 mil hectares sejam disponibilizados para a instalação de novas famílias de agricultores. As empresas, por sua vez, devem receber R$ 584 milhões em indenização e manterão a posse de 680 hectares.
O impacto social do acordo
Após três décadas de disputas, o fim desse conflito agrário é um marco importante na história da reforma agrária brasileira. O impacto positivo do acordo foi celebrado pelas famílias que aguardavam essa nova etapa de suas vidas. Jonas Fures, morador do acampamento Dom Tomás Balduíno, destacou a importância deste dia: "É um dia muito especial, talvez seja o dia mais esperado nesses últimos 10 anos. É onde as famílias almejam chegar, com a solução do conflito. E já sonham com outras coisas, com um futuro melhor."
"Temos muito o que comemorar", disse Sandra Padilha Alves, membro da comunidade Herdeiros da Terra.
Entre as milhares de famílias que ocuparam a área e formaram a comunidade Herdeiros da Terra de 1º de Maio, está a de Sandra Padilha Alves. Ela emocionou-se ao relatar sua jornada: "Estou desde o início do acampamento, onde conquistamos um pedaço de terra. Trabalho com minha família na produção de hortaliças e estou começando um horto medicinal. Não tem como descrever a emoção deste dia."
História do conflito e suas repercussões
O conflito agrário envolvendo a madeireira Giacomet-Marodin começou no dia 17 de abril de 1996, na cidade de Rio Bonito do Iguaçu. A mobilização, que contou com a presença de milhares de pessoas, foi imortalizada pelo fotógrafo Sebastião Salgado, que capturou a imagem intitulada "A luta pela terra: a marcha de uma coluna humana". Desde então, essa área tornou-se uma das maiores regiões contínuas dedicadas à reforma agrária na América Latina.
Nas suas fases iniciais, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) formalizou a criação do assentamento Ireno Alves dos Santos em agosto de 1997, que abrigou 900 famílias. Com o passar dos anos, novos assentamentos foram criados, contribuindo para a luta pela terra na região.