O Fim da Era da Cinza e a Revolução Iraniana
A guerra contra o Irã simboliza o desejo de encerrar um período de instabilidade que se iniciou em 1979, marcado pela revolução iraniana e o ataque à Meca. Este período, que podemos denominar de "Era da Cinza", foi caracterizado por incertezas, miséria e violência, transformando profundamente as dinâmicas internacionais.
Em 1979, um ano que começou com esperanças e terminou como um divisor de águas na história, o exilado ayatolá Ruhollah Khomeini retornou a Teerã, dando fim a uma revolução popular que havia sido desencadeada pelo partido comunista Tudeh. Este foi um momento crítico, pois os Estados Unidos perderam um de seus principais aliados no Oriente Médio, acreditando na possibilidade de mudar a trajetória do longo conflito regional.
Embora houvesse um acordo de paz entre Egito e Israel assinado em 1979, considerado pela Casa Branca uma base para uma nova estratégia de pacificação, a Era da Cinza se consolidou com outros eventos significativos. Em novembro, um grupo sunita radical atacou a Grande Mesquita de Meca, proclamando a monarquia saudita como herege e anunciando a chegada do Mahdi, o imã oculto, e o fim dos tempos. A ocupação do local mais sagrado do islamismo terminou em um confronto sangrento, envolvendo tropas francesas e resultando na execução pública do líder extremista Juhayman al Otaibi.
Além disso, no mesmo ano em que o mundo descobriu Maradona, a invasão soviética do Afeganistão deu início a uma ocupação que se estenderia por uma década, alimentando a necessidade de uma nova estratégia por parte dos Estados Unidos e seus aliados regionais, como Arábia Saudita e Paquistão, que temiam a onda revolucionária que surgia no Irã.
Desse contexto, foi forjado o "ponte dos mujahidin", um plano coordenado pela CIA e pelo Mosad para treinar e enviar radicais islâmicos para o Afeganistão. Entre esses combatentes estava Osama Bin Laden e Ayman al-Zawahiri. Após a guerra, muitos destes extremistas voltaram para seus países, mas não como heróis, e sim sendo recebidos com desconfiança.
Essa frustração catalisou o surgimento de grupos terroristas na década de 1990, como a Al Qaeda e, posteriormente, o Estado Islâmico. O Irã, por sua vez, não apenas sobreviveu a esses desafios, mas também fortaleceu seu regime rigorista, especialmente em decorrência da guerra contra o Iraque, e tornou-se um dos principais opositores do imperialismo ocidental.
Com o tempo, o Irã estabeleceu alianças com Rússia e China, expandindo sua influência para Líbano e Síria, ascendeu como uma potência regional devido à sua riqueza petrolífera. Essa dinâmica foi ainda mais marcada pelos atentados de 11 de setembro e pelas decisões geopolíticas que permitiram ao governo americano usar de poderes especiais para justificar ataques a nações, sempre sob a bandeira da luta contra o terrorismo internacional.
Esses desdobramentos amadureceram em um ambiente de violência e desigualdade que, desde 1979, continua a assolar a região. O atual contexto no Oriente Médio é uma consequência direta desta cadeia de eventos complexos e entrelaçados, que na ausência de paz, remanescem sob uma fina camada de cinzas.
Javier Martín, escritor e jornalista, é o fundador da primeira correspondente permanente da Agência EFE no Irã.