Vaclav Smil critica superficialidade em debates climáticos
Vaclav Smil, professor emérito da Universidade de Manitoba, no Canadá, expressa seu cansaço com as discussões sobre energia que, segundo ele, são influenciadas por "especialistas de internet". Em uma entrevista ao GLOBO, Smil fala sobre seu novo livro, “O tamanho das coisas”, que chegou ao Brasil na última semana.
Com 82 anos, o tcheco-canadense destaca que sua pesquisa sobre consumo de combustíveis fósseis e a transição energética vêm sendo ofuscadas por debates superficiais. Ele afirma que a crescente participação de "especialistas de internet" em discussões públicas o afastou da produção de textos que poderiam explorar questões relevantes, como o grande consumo energético exigido pela inteligência artificial.
— Não quero entrar nesses debates públicos sobre energia e sustentabilidade porque eles estão bagunçados, além de qualquer possibilidade de conserto, por causa de todos esses “especialistas” instantâneos da internet — disse Smil na entrevista por telefone.
Smil relaciona seu cansaço à falta de conhecimento entre muitos dos que participam do debate público. Em sua opinião, o excesso de crença no senso comum cria um ambiente desfavorável à discussão científica fundamentada. Ele alerta para a situação na América do Norte, onde muitos declaram sua fé em figuras políticas, como Donald Trump, sem olhar para as evidências.
O novo livro de Smil não se limita ao debate sobre energia, mas também aborda medições, proporções, escalas e aspectos do metabolismo humano. O autor traz curiosidades, como a popularidade global dos chinelos de dedo, e menciona que a Biblioteca do Congresso, em Washington, ampliou seu volume de informações em três mil vezes ao longo de um século.
Smil destaca seu método de pesquisa, que envolve a busca por fontes originais, e evita consultar materiais de segunda mão, como a Wikipedia.
— Vou sempre aos originais, aos livros dos séculos XVIII, XIX, XX. Uso um sistema em que posso acessar 35 mil publicações científicas, vou às fontes — comentou.
Sobre sua audiência, o pesquisador expressa ceticismo quanto ao hábito de leitura entre executivos e políticos. Segundo ele, o tempo em que as pessoas realmente se dedicavam à leitura está passando.
— Duvido (que seja lido por esses tomadores de decisão)! Ninguém mais lê nenhum livro. As pessoas passam suas vidas com a cara no celular — afirma.