Guerra no Irã e a Maior Ameaça à Segurança Energética Global
O diretor executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, fez um alerta ao afirmar que a guerra no Irã representa a maior ameaça à segurança energética mundial da história. Esta declaração surge em um momento crítico, quando o fechamento do Estreito de Ormuz, vital para o transporte de uma significativa parte do petróleo e gás consumidos globalmente, está levando a uma escalada de preços sem precedentes.
A AIE, responsável por coordenar as reservas estratégicas de petróleo de 32 países industrializados, anunciou a liberação gradual de 400 milhões de barris, a maior intervenção de reservas da história. No entanto, mesmo essa medida não conseguiu conter a alta dos preços do petróleo, que ultrapassaram os 110 dólares por barril, um aumento de 50% desde o início do conflito.
Os impactos dessa crise já são visíveis com o aumento dos preços da gasolina e do diesel em vários países. O governo da Espanha, por exemplo, aprovou um corte no IVA sobre combustíveis, eletricidade e gás como uma resposta direta ao cenário. Contudo, a perspectiva futura é preocupante: Birol alerta que a redução de fornecimento atual já supera os danos causados durante as crises energéticas da década de 70, quando foram perdidos cerca de 10 milhões de barris diários de petróleo.
A diferença nesta crise atual é que, segundo Birol, a perda de fornecimento já atinge 11 milhões de barris por dia, o que a torna mais severa do que aquelas vivenciadas em 1973 e 1979, quando embargos foram impostos e a produção foi paralisada em virtude de protestos e conflitos.
A escassez de petróleo tem impactos diretos nas reservas operativas do setor. Dados de análises marítimas mostram que cerca de 50% do petróleo armazenado em navios foi consumido em poucas semanas, e um terço restante pertence a entidades iranianas, que estão sob sanções dos Estados Unidos.
Em relação ao gás, a situação é igualmente alarmante. Birol ressalta que a redução de fornecimento é o dobro da provocada pela interrupção das exportações russas após a invasão da Ucrânia. Apesar de a Europa depender menos do Estreito de Ormuz, os preços do gás natural na região já duplicaram desde o início do conflito, em decorrência da busca por alternativas por parte dos países asiáticos que dependem dessa rota.
Além disso, essa crise também começa a afetar o fornecimento de fertilizantes, uma vez que um terço do adubo consumido globalmente depende do gás, e esse problema pode impactar os preços de commodities alimentares no futuro próximo. Birol adverte: "Se a interrupção persistir, logo veremos efeitos nos preços das matérias-primas e dos alimentos."
Todos os dias a situação se agrava. Mesmo que o conflito termine e o Estreito de Ormuz seja reaberto, o restabelecimento das operações de extração de petróleo e gás que foram danificadas pode levar meses, destacando, por exemplo, o impacto do fechamento da fábrica de produção de gás natural de Ras Laffan, em Quatar, que é responsável por mais de 10% do suprimento mundial de gás.
De acordo com especialistas, como os da Kpler, os danos que ocorrerem durante esse conflito podem ter implicações muito mais graves para o mercado global de gás licuado do que uma simples interrupção temporária. A previsão é de que esse cenário permaneça turbulento com perspectivas de fornecimento ainda mais frágeis até 2027. Assim, a maior ameaça ainda parece estar apenas começando.