Deficiências Invisíveis Impactam Alunos nas Escolas Brasileiras
Uma pesquisa recente da Universidade de Stanford revelou que aproximadamente um em cada dez alunos brasileiros enfrenta o desafio das "deficiências invisíveis", condições que afetam a visão e a audição, e que impactam diretamente no aprendizado. O coautor do estudo, Guilherme Lichand, ressalta a importância de realizar exames anuais nas escolas para identificar e tratar essas condições, contribuindo assim para a diminuição das discrepâncias educacionais no país.
O estudo revelou que testes realizados com alunos do 9º ano do ensino fundamental indicam que cerca de um terço dos estudantes aprendeu o mesmo que crianças que estão nas séries iniciais, entre o 1º e o 3º ano. Isso se deve a fatores desafiadores, como as dificuldades físicas que muitos alunos enfrentam. Lichand observa: "Se ninguém perceber as deficiências invisíveis e se não direcionar soluções para os serviços de saúde, que garantam óculos e aparelhos auditivos, os alunos continuarão a ficar para trás".
O Censo Escolar, fornecido pelo Ministério da Educação (MEC), aponta que em 2025 havia 2,4 milhões de estudantes identificados com algum tipo de deficiência, um aumento de 153% em comparação a 2016. Do total, 95% são crianças e adolescentes com deficiência intelectual ou autismo. Contudo, Lichand argumenta que o número de casos de baixa visão, deficiência auditiva e problemas motores é subestimado, tornando essas deficiências "invisíveis" para as escolas.
O estudo indica que aproximadamente 2,7 milhões de alunos têm algum tipo de deficiência que não é registrada, enquanto o Censo contabiliza apenas 91 mil com baixa visão e 41 mil com deficiência auditiva, representando uma pequena fração da população escolar. As implicações dessas descobertas são graves: a falta de identificação e suporte pode levar ao abandono escolar precoce. Lichand enfatiza que "se as escolas não realizarem exames de vista e audição anualmente, estaremos permitindo que muitos alunos fiquem para trás".
A pesquisa, conduzida por Lichand em conjunto com a professora Elizabeth Kozleski, foi realizada com uma amostra representativa de 250 escolas brasileiras. Os dados mostram que metade dos estudantes com deficiências invisíveis enfrenta problemas de visão e não utiliza óculos, enquanto outros sofrem com dificuldades auditivas que requerem aparelhos. Bem como, há crianças com deficiências motoras que dificultam a escrita e outras atividades escolares.
Um programa de recuperação de aprendizagem na rede estadual de São Paulo foi analisado para verificar se a proporção de alunos com deficiências invisíveis era maior entre aqueles que não estavam aprendendo adequadamente. Os resultados indicaram que quatro em cada dez estudantes do grupo que frequenta as turmas de recuperação apresentavam essas deficiências, um número surpreendentemente elevado em comparação ao percentual observado em escolas regulares.
"Se um aluno enfrenta dificuldades em enxergar o quadro ou a folha, o aprendizado se torna impossível" — disse Lichand, enfatizando a gravidade do problema que muitos alunos nas salas de aula enfrentam constantemente. Segundo a Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, o programa de recomposição, denominado Professor Tutor-Anos Finais, foca na recuperação de competências em Língua Portuguesa e Matemática, e inclui avaliações diagnósticas que ajudam a identificar a necessidade de apoio dos alunos.
O MEC também se posiciona a favor da inclusão, mencionando a importância de políticas públicas que assegurem a detecção das necessidades especiais em estudantes, e que a coordenação com o Ministério da Saúde é essencial para o sucesso do Programa Saúde na Escola (PSE) no diagnóstico de deficiências sensoriais.
Como a pesquisa de Stanford revela, a necessidade de uma abordagem mais integrada entre educação e saúde é crucial para garantir que todos os alunos possam prosperar, independentemente de suas dificuldades invisíveis.