Nove em cada dez moradores de comunidade reprovam operações violentas

Por Autor Redação TNRedação TN

Nove em cada dez moradores de comunidade reprovam operações violentas

Uma pesquisa recente revelou que nove em cada dez moradores de comunidades do Rio de Janeiro reprovam as operações policiais que envolvem confronto armado. O estudo, realizado por seis organizações da sociedade civil, entrevistou 4. 080 moradores de quatro comunidades: Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Complexo da Maré e Rocinha, entre os dias 13 e 31 de janeiro de 2026.

Os resultados foram divulgados no dia 20 de maio de 2026 e mostram uma clara insatisfação com o modelo atual de atuação policial nas favelas. A pesquisa intitulada "Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?" foi coordenada por Eliana Sousa Silva, diretora fundadora da Redes da Maré.

Segundo ela, o levantamento foi motivado pela crescente brutalidade das operações policiais, que, entre 2023 e 2025, resultaram em 92 confrontos armados na Maré, com um número significativo de mortes e feridos. Os dados mostram que 73% dos moradores dos complexos do Alemão e da Penha, da Maré e da Rocinha não concordam com o tipo de operação policial atualmente realizado. Apenas 25% disseram que concordam, e 2% não responderam.

Quando questionados sobre a necessidade de realizar operações policiais, 92% dos entrevistados se opuseram ao modelo atual, enquanto 68% acreditam que as operações devem ser feitas de outra forma. Para 24%, não deveriam ocorrer operações policiais nas favelas. Mesmo entre aqueles que apoiam as operações, apenas 20% defendem o modelo atual.

Eliana Silva destacou que a percepção negativa dos moradores de favelas, frequentemente retratados pela mídia, contribui para a crença de que o confronto armado é a única solução para o crime nessas áreas. No entanto, os efeitos dessas operações na vida cotidiana dos moradores são frequentemente ignorados. Para 91% dos entrevistados, há excessos e ilegalidades por parte da polícia durante essas operações, e 90% consideram esses excessos inaceitáveis.

A pesquisa também revelou que 95% dos moradores que se opõem às operações reprovam a brutalidade policial. Mesmo entre os que concordam com as operações, 74% condenam os excessos. Isso indica que apoiar operações policiais não significa aceitar a violência.

Eliana Silva enfatizou a necessidade de repensar a abordagem policial nas favelas, sugerindo que o enfrentamento ao crime deve ser feito de maneira mais ampla e coletiva, sem o uso excessivo de força. A pesquisa também abordou o impacto das operações policiais na vida dos moradores. A restrição de circulação foi apontada como o principal efeito negativo, afetando 51% dos que discordam das operações e 41,5% dos que concordam.

Outros impactos incluem a invasão de domicílios e estabelecimentos comerciais, citada por 37,5% dos que discordam e 22,9% dos que concordam. Tiroteios e balas perdidas foram mencionados por 30,5% dos que discordam e 20,7% dos que apoiam as intervenções policiais. Os dados também revelaram um aumento de 58% na letalidade na Maré em 2025 em comparação a 2024.

Eliana Sousa Silva criticou o direcionamento de recursos públicos para a compra de armas para a polícia, em vez de serem investidos em políticas públicas que beneficiem a população. Ela destacou que a operação mais letal registrada na capital fluminense, que ocorreu em outubro do ano anterior e resultou em 122 mortes, não tem o apoio da maioria dos moradores de favela. Quando questionados sobre a repetição de operações semelhantes, 85% dos moradores disseram que não, 7% responderam que às vezes e 7% afirmaram que sim.

Em um ano eleitoral, a questão da segurança pública deve ser um tema central nas campanhas, com candidatos que muitas vezes prometem soluções que não consideram os direitos e as necessidades dos moradores. A pesquisa também abordou a questão do racismo nas operações policiais. A discordância em relação às operações alcançou 81% entre os entrevistados pretos, enquanto a concordância foi maior entre os brancos, com 30%.

A percepção de racismo nas operações é predominante, com 61% dos entrevistados afirmando que sim, e 25% negando essa afirmação. Os jovens, especialmente aqueles entre 18 e 29 anos, mostraram-se os mais críticos em relação às operações policiais, com 79% se manifestando contra. O medo da polícia também foi um tema abordado na pesquisa, com 78% dos moradores relatando sentir medo durante as operações.

Essa percepção de medo é maior entre aqueles que se opõem às operações. A pesquisa conclui que os moradores de favelas enfrentam duas formas de violência: a dos policiais e a dos criminosos, e que é necessário repensar as estratégias de segurança pública para garantir os direitos e a vida dos cidadãos que habitam essas comunidades.

Tags: Operações Policiais, Moradores, Violência, Favelas, Rio de Janeiro Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br