O Departamento de Estado dos Estados Unidos utilizou a retórica da guerra contra as drogas para classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. No entanto, dados recentes mostram que essas facções brasileiras têm uma presença quase insignificante no tráfico de drogas para os EUA, concentrando suas atividades principalmente na Europa. Essa informação foi revelada por dados de apreensões obtidos pelo jornal O Globo, que indicam que a cocaína exportada do Brasil tem como principais destinos portos europeus, como Antuérpia, Valência e Roterdã.
Entre 2016 e 2025, a alfândega de Santos registrou 345 apreensões de cocaína, com rotas para 68 portos em 50 países, mas não há registros de apreensões com destino aos Estados Unidos. Especialistas consultados pelo Globo afirmam que, apesar do PCC ser um grande ator no tráfico de cocaína para a Europa, a operação internacional do CV ainda é pequena, e nenhum dos dois grupos possui uma presença significativa nos EUA. Gabriel Patriarca, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP), explica que a logística de exportação de drogas para os EUA é complexa, tornando difícil para as facções brasileiras atuarem nesse mercado.
Ele destaca que é mais comum encontrar apreensões de armas com origem nos Estados Unidos chegando ao Porto de Santos do que o contrário. Entre 2016 e 2024, a Polícia Federal registrou pelo menos 26 apreensões de armas nesse porto. Priscila Villela, professora de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), argumenta que a reclassificação dos grupos criminosos como terroristas pelos EUA parece ter mais motivações geopolíticas do que policiais.
Segundo ela, essa medida permite aos Estados Unidos mobilizar um conjunto de ferramentas políticas e jurídicas que foram desenvolvidas ao longo de 20 anos de guerra ao terror, agora aplicadas à América Latina. A reclassificação dos grupos como terroristas também levanta questões sobre a soberania brasileira. O governo Lula já se manifestou, afirmando que a soberania do país é "inegociável" e rejeitando qualquer tipo de interferência externa.
Essa situação é vista como uma tentativa dos EUA de consolidar sua influência na região, especialmente em um momento em que a presença do CV na Amazônia está crescendo, com traficantes utilizando novas rotas para o tráfico internacional. Gabriel Funari, pesquisador da Iniciativa Global Contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC), observa que algumas facções estão utilizando o Caribe como rota de saída para levar drogas para a Europa. Ele menciona a Rota do Solimões, que faz o escoamento por Belém e Barcarena, e a crescente utilização do Porto de Santana, no Amapá, como uma nova saída para o tráfico.
Além disso, a presença das facções na Amazônia é uma preocupação crescente, especialmente com a proximidade do litoral do Amapá com o Caribe, onde os EUA têm realizado operações militares contra embarcações suspeitas de tráfico. Funari alerta que, embora as facções brasileiras não tenham uma presença significativa nos EUA, a situação pode mudar rapidamente, e um ataque a uma embarcação brasileira não seria surpreendente. Por fim, mesmo que as autoridades afirmem que o PCC já está atuando nos Estados Unidos, a reclassificação como terroristas pode não ser a solução mais eficaz para combater o tráfico de drogas.
Villela argumenta que já existem leis e mecanismos de cooperação internacional estabelecidos, e a reclassificação pode complicar ainda mais a relação entre Brasil e Estados Unidos, especialmente em um momento em que a colaboração entre as polícias dos dois países é considerada essencial para o combate ao crime organizado.