Mães buscam ressignificar padrões emocionais herdados de suas famílias

Por Autor Redação TNRedação TN

M�es buscam ressignificar padr�es emocionais herdados de suas fam�lias - Foto: Folha de S.Paulo

Nos últimos anos, um número crescente de mães tem buscado ressignificar padrões emocionais herdados de suas famílias, um fenômeno que está sendo cada vez mais discutido no contexto da saúde mental. O conceito de trauma transgeracional, que se refere a feridas emocionais que são transmitidas de uma geração para outra, tem ganhado destaque nas conversas sobre maternidade e criação de filhos. A psicóloga húngara Noémi Orvos-Tóth, autora do livro "Sua Vida Começa Antes de Você: Família, Trauma e os Caminhos da Cura", compartilha sua experiência pessoal e profissional sobre o tema.

Ela relata que, ao dar à luz sua filha há 23 anos, percebeu sinais de trauma transgeracional em sua própria vida. Sua avó materna, que havia perdido filhos e enfrentado diferentes processos de luto, manifestava um medo constante de que sua neta adoecesse, gritando quando ela andava descalça. "Quando minha filha nasceu, meu primeiro pensamento foi que ela poderia morrer", revela Orvos-Tóth.

Essa experiência a levou a aprender sobre a importância de ser aberta e flexível, estimulando novos pensamentos e perspectivas na educação de sua filha. O trauma transgeracional pode se manifestar de diversas formas, seja através de comportamentos, dinâmicas familiares ou até mesmo por meio da epigenética. A psicanalista Camila Menezes explica que esses padrões muitas vezes não são reconhecidos pela própria pessoa, mas podem ser identificados por meio de observações externas ou durante o processo terapêutico.

"Para a psicanálise, não é um processo consciente", afirma Menezes, destacando que a percepção desses traumas pode ser difícil sem ajuda profissional. A psicóloga Monalisa Barros, especialista em saúde mental perinatal, alerta que o uso indiscriminado do termo "trauma" pode patologizar experiências comuns a qualquer família. Ela enfatiza que existem registros transgeracionais que não necessariamente envolvem traumas, mas sim a construção da cultura familiar.

"Reconhecer esse padrão não significa condená-lo, mas entender que ele pode ter feito sentido em algum momento para os seus pais", explica Barros. Luana Gabriele Nilson, uma mãe de 40 anos, reflete sobre sua própria infância e as marcas deixadas por padrões familiares. Embora não tenha memórias de traumas graves, ela reconhece a pressão estética e as expectativas acadêmicas que moldaram sua criação.

Luana busca romper com essas heranças ao criar sua filha, Aurora, de 6 anos. "Queria muito que ela crescesse entendendo que a família é um espaço seguro para nos frustrar e decepcionar, e que ela não precisa ser algo que não quer", diz Luana. Esse desejo de criar um ambiente mais acolhedor e livre de pressões externas é uma tendência crescente entre as mães contemporâneas.

No entanto, as especialistas alertam que a busca pela maternidade perfeita pode ser perigosa. Menezes lembra que Freud considerava a educação uma das três tarefas impossíveis, pois sempre há algo que passa, queira o educador ou não. Barros complementa que não devemos perseguir a perfeição, mas sim sermos mães suficientemente boas, permitindo que nossos erros e desencontros contribuam para a formação de um novo ser.

A discussão sobre trauma transgeracional e suas implicações na maternidade é crucial para a saúde mental das mães e das crianças. Ao reconhecer e trabalhar esses padrões, as mães podem não apenas melhorar sua própria saúde emocional, mas também proporcionar um ambiente mais saudável e seguro para seus filhos. Essa ressignificação é um passo importante para quebrar ciclos de dor e promover um futuro mais positivo para as próximas gerações.

Tags: trauma transgeracional, Maternidade, SaúdeMental, padrões emocionais, criação de filhos Fonte: redir.folha.com.br