Na última quarta-feira, o setor de tecnologia teve um dia agitado, com Meta, Google, Amazon e Microsoft divulgando seus resultados financeiros simultaneamente. No entanto, a Meta se destacou como a grande perdedora, com suas ações caindo mais de 7%, apesar de um aumento de 33% na receita no último trimestre, o crescimento mais rápido desde 2021. Essa queda é atribuída ao aumento das expectativas de gastos da empresa, que agora prevê que os investimentos em capital para 2026 serão pelo menos 10 bilhões de dólares superiores ao esperado, podendo ultrapassar a marca de 145 bilhões de dólares.
O CEO Mark Zuckerberg enfatizou sua "confiança nesse investimento", explicando que a maior parte desse aumento se deve aos "custos mais altos de componentes, particularmente os preços da memória". O boom da inteligência artificial (IA) levou a uma construção sem precedentes de data centers, o que restringiu a oferta global de chips de memória e elevou os preços desses componentes valiosos. Essa crise de memória afetou não apenas a Meta e o restante da indústria de IA, mas também fez com que os preços de eletrônicos de consumo, como laptops e smartphones, disparassem.
O investimento de 145 bilhões de dólares da Meta representa um aumento dramático em relação aos 72 bilhões de dólares gastos no ano anterior, e Zuckerberg está apostando tudo em uma recuperação impulsionada pela IA. A Meta tem enfrentado dificuldades na corrida pela IA, enquanto concorrentes como o Google avançaram significativamente. Cerca de dez meses atrás, Zuckerberg reconheceu essa situação e anunciou um esforço de recuperação que envolveu o comprometimento de bilhões de dólares em pesquisa e desenvolvimento, além de atrair talentos de toda a indústria, incluindo a contratação do fundador da Scale AI, Alexandr Wang, para liderar a nova divisão Meta Superintelligence Labs.
Essa aposta em IA gerou preocupações, especialmente considerando que a última grande aposta da empresa em tecnologia emergente, o Metaverso, não teve o sucesso esperado. No relatório de resultados de quarta-feira, a divisão Reality Labs, responsável pelos esforços no Metaverso, registrou uma perda operacional de mais de 4 bilhões de dólares, enquanto arrecadou apenas 402 milhões de dólares em vendas. Isso se soma a mais de 80 bilhões de dólares em perdas acumuladas nos últimos seis anos.
Apesar das incertezas, especialistas estão um pouco mais otimistas em relação à aposta em IA, especialmente após o lançamento do modelo de IA Muse Spark, que a empresa planeja tornar de código aberto no futuro. "Este foi o primeiro lançamento dos Meta Superintelligence Labs, e mostra que nosso trabalho está no caminho certo para construir um laboratório líder", assegurou Zuckerberg aos investidores durante a chamada de resultados. Ele também mencionou que a empresa está desenvolvendo novos produtos, incluindo dois agentes, um para uso pessoal e outro para negócios.
"Já estamos testando uma versão inicial de AIs para negócios e as conversas semanais cresceram 10 vezes desde o início deste ano", afirmou. Internamente, a IA também está se mostrando benéfica para a Meta. A CFO da Meta, Susan Li, revelou que mais de meio bilhão de usuários semanalmente no Facebook e Instagram estão assistindo a vídeos traduzidos e dublados por IA.
A empresa está incorporando o novo modelo de IA em partes de seu negócio principal, como anúncios e, particularmente, em seu sistema de recomendações. O objetivo é que a IA personalize ainda mais os feeds dos usuários. "Como nossos sistemas de recomendação operam em uma escala tão grande, vamos implementar essa nova pesquisa e tecnologia ao longo do tempo", disse Zuckerberg.
"Mas a tendência nos últimos anos parece clara: estamos vendo um retorno crescente sobre o quanto podemos melhorar o engajamento das pessoas e o valor para os anunciantes." Além disso, a IA está assumindo um papel central na estrutura interna da Meta. A empresa está demitindo 10% de sua força de trabalho e, segundo relatos, oferecendo demissões voluntárias a 7% de seus funcionários nos EUA, seguindo uma tendência de automação que tem se espalhado pelo Vale do Silício.
Durante a chamada, os executivos não confirmaram se as demissões estavam relacionadas à automação de empregos, mas Li afirmou que um "modelo operacional mais enxuto" ajudaria a "compensar os investimentos substanciais que estamos fazendo".