A inteligência artificial (IA) se tornou um tema central no mercado de trabalho, com empresas investindo cada vez mais na tecnologia. Executivos falam sobre uma revolução produtiva, enquanto trabalhadores tentam entender quais funções permanecerão relevantes na nova era tecnológica. No entanto, um estudo recente revela um paradoxo interessante: à medida que a IA avança, as empresas estão começando a valorizar mais as habilidades humanas.
Em vez de eliminar empregos, a tecnologia está mudando o foco das organizações para atributos comportamentais, capacidade de adaptação, comunicação e inteligência relacional. ### Adoção da IA e seus efeitos Um estudo do National Bureau of Economic Research (NBER) indica que 69% das empresas já utilizam alguma forma de IA, com esse número chegando a 78% nos Estados Unidos. A pesquisa, que entrevistou quase 6 mil executivos de países como EUA, Reino Unido, Alemanha e Austrália, mostra que as expectativas são altas.
Os executivos estimam um aumento médio de 1,4% na produtividade e projetam uma aceleração operacional nos próximos anos. No entanto, os impactos concretos ainda parecem limitados. Cerca de 90% dos executivos afirmam que a IA não alterou o número de funcionários nas empresas nos últimos três anos, e 89% não perceberam um efeito significativo na produtividade medida por vendas por empregado.
### O impacto psicológico da IA Apesar de não haver mudanças drásticas no emprego, a IA já alterou o ambiente psicológico de trabalho. Pesquisas mostram um aumento da insegurança profissional, especialmente entre jovens trabalhadores e aqueles em áreas mais expostas à automação. Em resposta, as empresas estão revisando quais características consideram estratégicas nas lideranças.
O levantamento do People Trends 2026, realizado pelo Evermonte Institute, revela que 69,3% das empresas priorizam o perfil comportamental na contratação de executivos, superando o histórico técnico (57,3%) e a visão estratégica de negócios (45,3%). ### A valorização das soft skills As competências tradicionalmente chamadas de "soft skills" passaram a ser vistas como diferenciais competitivos. A pesquisa do NBER mostra que a IA é utilizada principalmente para geração de textos, análise de dados e automação de tarefas repetitivas.
Contudo, isso não elimina a necessidade de profissionais que possam interpretar cenários ambíguos, liderar equipes e tomar decisões complexas. A capacidade de aprender rapidamente, conhecida como "learning agility", tornou-se um ativo central, pois a velocidade da transformação tecnológica dificulta a previsão de quais conhecimentos técnicos permanecerão relevantes a médio prazo. ### O paradoxo da era da IA Esse movimento cria um paradoxo curioso: quanto mais tarefas operacionais são automatizadas, mais raro se torna o que depende de julgamento, contexto, sensibilidade, confiança, criatividade, negociação, liderança e empatia.
A IA está não apenas automatizando tarefas, mas também empurrando o trabalho humano para atividades mais relacionais, estratégicas e subjetivas. Isso explica por que as empresas passaram a tratar cultura, liderança e pertencimento como ativos cada vez mais importantes. ### O valor do humano na era da IA O discurso predominante sobre a inteligência artificial gira em torno da substituição de funções.
No entanto, os dados mais recentes sugerem um cenário mais complexo. A IA deve transformar funções, acelerar processos e reduzir atividades repetitivas, mas também parece estar elevando o valor das competências que as máquinas ainda não conseguem reproduzir plenamente. Esse é um dos efeitos menos óbvios, mas mais profundos, da nova revolução tecnológica.
À medida que a tecnologia avança, o que se torna cada vez mais valioso é a capacidade humana de se relacionar e se adaptar a novas realidades, destacando a importância das habilidades interpessoais e emocionais no ambiente de trabalho atual.