O caso da soldado Gisele Alves Santana, morta pelo tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, expõe um padrão de feminicídio marcado por controle, violência psicológica e manipulação. O agressor impunha dominação através de humilhações, coerção emocional e isolamento, sinais clássicos que frequentemente precedem o desfecho trágico desses crimes. Especialistas destacam a importância de reconhecer e agir frente aos primeiros sinais de abuso.
O feminicídio, conforme estudos apontam, não é um ato isolado, mas um crime que segue um roteiro conhecido e muitas vezes evitável. "Controle, perseguição, humilhação e pressão psicológica" são elementos constantes em relações onde a violência é protagonista. Para os especialistas, esses crimes podem ser prevenidos se os sinais forem identificados a tempo.
Recentemente, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto foi preso e, atualmente, está sob investigação por feminicídio após inconsistências em seu depoimento. Laudos periciais indicaram que a versão do suicídio apresentada por ele era impossível. Sinais clássicos de alerta foram identificados na relação do casal. Mensagens revelaram que o oficial pressionava Gisele a deixar seu emprego e exigia provas públicas de seu relacionamento. Ele se autodenominava "alfa" e referia-se a sua companheira como "fêmea beta", refletindo uma dinâmica de controle severo.
Além das humilhações e das pressões psicológicas, um padrão contínuo de controle e manipulação pode ser observado. Em investigações anteriores, a violência verbal surge como um dos primeiros sinais. O militar monitorava a presença da soldado em redes sociais e limitava seu contato com amigos e familiares.
Segundo a psicóloga Luciana Inocêncio, o feminicídio, na verdade, começa antes do ato final. "Ele começa muito antes, quando se tolera o desrespeito, quando se normaliza o controle", explica. A própria profissão de ambos como policiais pode ter intensificado essa coerção, já que conhecem as estratégias de intimidação.
A promotora de Justiça Celeste Leite dos Santos do Ministério Público de São Paulo (MPSP) acrescenta que esse tipo de comportamento é muitas vezes interpretado como cuidado, criando uma camada de confusão para a vítima, que pode acreditar que está sendo protegida.
Outro traço comum em casos de feminicídio é a ameaça emocional, onde o agressor se coloca como vítima. O tenente-coronel, após Gisele sugerir a separação, enviou um vídeo com uma arma apontada para a própria cabeça, uma ação classificada como "ameaça suicida instrumental", que evidencia a coercitividade emocional presente nesse tipo de relação.
O isolamento social da vítima também é uma etapa recorrente nesses casos. O agressor tenta limitar o contato com amigos e familiares, criando uma dependência que torna ainda mais difícil o rompimento. Mensagens indicam que o tenente-coronel não apenas vigiava a esposa, mas também intimidava seus conhecidos.
O controle financeiro frequentemente associado ao papel tradicional de provedor também é um dos mecanismos de violência. O militar exigia "amor" e "dedicação" em troca de cuidados básicos, criando uma situação de manipulação financeira que aprisiona a vítima em um ciclo de dependência.
Com o tempo, essa dinâmica pode culminar em violência física, que representa a fase mais crítica e perigosa da relação. Relatos indicam que Gisele começou a expressar insatisfação e a sugerir um divórcio, aumentando o risco de violência letal. "A vítima deve procurar ajuda no primeiro sinal: ameaça, controle, violência verbal, pressão psicológica", alerta a psicóloga Luciana Inocêncio.
A tragédia neste caso seria, portanto, uma resultante de sinais ignorados ao longo do tempo, onde o feminicídio se configura como o último ato de uma história marcada pela opressão e controle, ressaltando a necessidade urgente de ações e intervenções na prevenção da violência contra mulheres.