O Rio Pinheiros, um dos principais cursos d'água de São Paulo, tem enfrentado um retrocesso significativo em seu projeto de despoluição, que começou em 2019. Inicialmente, a revitalização do rio prometia transformar a área em um espaço semelhante ao Puerto Madero, em Buenos Aires, mas a realidade atual é preocupante. O projeto, que envolveu um investimento de 1,5 bilhão de reais, tinha como objetivo recuperar a qualidade da água e revitalizar a região, que ao longo das décadas se tornou um símbolo do descaso ambiental, repleto de lixo e poluição.
A situação do Pinheiros era crítica antes do início das obras, com um aspecto de canal poluído e um forte odor. O projeto de despoluição, batizado de Novo Rio Pinheiros, trouxe melhorias visíveis nos primeiros anos, com a realização de 550 mil ligações para a rede de esgoto e a construção de cinco novas estações de tratamento. Durante esse período, a qualidade da água melhorou, e até peixes e tartarugas foram avistados novamente no rio.
No entanto, nos últimos anos, a situação se deteriorou novamente. Especialistas e dados da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB) confirmam que a qualidade da água piorou, com o aumento da demanda bioquímica de oxigênio (DBO), um indicador crucial da poluição. Em 2025, a DBO média foi de 122 miligramas por litro, um nível alarmante, considerando que um rio é considerado péssimo quando a medição é de 29 miligramas por litro.
Essa situação é ainda mais preocupante quando comparada aos dados anteriores, onde a média de DBO durante a gestão de João Doria, entre 2019 e 2022, foi de 47 miligramas por litro. A atual administração de Tarcísio de Freitas, que assumiu o governo em 2023, parece ter mudado o foco para o projeto Integra Tietê, que visa a recuperação do rio Tietê, deixando o Pinheiros em segundo plano. Essa mudança de prioridade tem gerado críticas, pois o Pinheiros, que já apresentava melhorias, agora é tratado como um coadjuvante nos esforços de despoluição.
A Sabesp, responsável pela execução do projeto, foi privatizada em 2024 e, segundo especialistas, a empresa desacelerou os trabalhos de manutenção no Pinheiros, essenciais para garantir a continuidade das melhorias. Com a deterioração das redes de esgoto, o esgoto bruto voltou a vazar para as águas do rio. A Sabesp, por sua vez, nega negligência e afirma que aumentou o número de prestadores de serviço.
A secretária de Meio Ambiente e Infraestrutura, Natália Resende, pediu paciência à população, afirmando que a qualidade do rio não melhorará da noite para o dia. No entanto, a falta de ações efetivas e a piora verificada nos últimos anos geram desconfiança e frustração entre os moradores e ambientalistas. O contraste com outras grandes cidades do mundo, como Paris, que investiu fortemente na despoluição do rio Sena, é evidente.
Enquanto Paris conseguiu reabrir o Sena para banhistas após 100 anos de interdição, São Paulo parece oscilar entre promessas grandiosas e a dificuldade crônica de manter os avanços já conquistados. O ex-governador João Doria enfatizou que "São Paulo merece ter o seu rio limpo", refletindo a insatisfação com a atual situação do Pinheiros. O futuro do Rio Pinheiros é incerto, e a necessidade de um compromisso contínuo e efetivo por parte das autoridades é mais urgente do que nunca.
A população paulista espera que as promessas de revitalização não sejam apenas palavras vazias, mas sim um compromisso real com a recuperação de um dos principais rios da cidade.