O carry trade, uma estratégia de investimento que envolve o empréstimo em moedas de baixo rendimento e o investimento em moedas de maior rendimento, está ganhando força no mercado cambial, especialmente com o real brasileiro e o rand sul-africano se destacando como as moedas favoritas dos investidores. Essa recuperação ocorre em um contexto de alta nos preços do petróleo, que tem gerado expectativas de que as taxas de juros permanecerão elevadas, beneficiando as moedas dos países exportadores de commodities. De acordo com um relatório da Bloomberg, um índice que monitora essa estratégia de carry trade subiu mais de 3% desde sua mínima em março e acumulou ganhos de cerca de 1,7% desde o início do conflito no Oriente Médio, que começou no final de fevereiro.
Este índice avalia os retornos de empréstimos em moedas como o iene japonês, o franco suíço e o yuan chinês, em comparação com investimentos em oito moedas de mercados emergentes, incluindo o real e o rand. A alta dos preços do petróleo, impulsionada pela guerra no Irã, tem se mostrado uma faca de dois gumes para os mercados emergentes. Inicialmente, a situação provocou uma fuga para ativos mais seguros, mas, nas últimas semanas, os investidores começaram a retornar a ativos voltados para o crescimento.
Essa mudança de comportamento é impulsionada pela expectativa de que os bancos centrais adotem uma política monetária mais restritiva para conter a inflação, o que, por sua vez, mantém as taxas reais atrativas. Jason Devito, gestor sênior de portfólio de dívida de mercados emergentes da Federated Hermes, comentou que o carry trade em mercados emergentes será favorecido por taxas de juros reais elevadas por um período prolongado. Ele destacou que, enquanto alguns países emergentes enfrentam desafios, o Brasil se beneficia da credibilidade de seu banco central e das altas taxas de juros reais.
Os investidores estão cada vez mais apostando que os preços elevados do petróleo manterão a inflação e as taxas de juros altas nos países em desenvolvimento. Dados compilados pela Bloomberg mostram que a média dos swaps de taxas de juros de 12 meses em 14 economias de mercados emergentes subiu para 5,7%, em comparação com 5% antes do início do conflito. Outro fator que tem contribuído para a recuperação do carry trade é a volatilidade cambial relativamente baixa.
Um indicador de volatilidade cambial em mercados emergentes está atualmente em 6,88%, abaixo dos 9,23% registrados em março. Essa menor volatilidade favorece o carry trade, pois minimiza o risco de que flutuações cambiais anulem os lucros provenientes dos diferenciais de taxas de juros. Algumas operações individuais têm gerado retornos excepcionais.
Por exemplo, uma estratégia de empréstimos em francos suíços e investimentos em reais brasileiros desde o final de fevereiro rendeu 6,6%, enquanto investimentos em ienes e compras de liras turcas geraram um ganho de 6,9%. O ambiente atual de mercado continua favorável ao carry trade, especialmente com a expectativa de que o Federal Reserve não adotará uma postura mais agressiva sob a nova gestão. Homin Lee, estrategista da Lombard Odier, expressou otimismo em relação ao real brasileiro, afirmando que o Brasil está em uma posição sólida para resistir à turbulência no mercado de energia e se beneficiar do boom global de investimentos pós-conflito.
No entanto, ele alertou que, apesar das oportunidades de lucro, os investidores devem estar atentos aos riscos políticos crescentes, especialmente com as eleições programadas para este ano na Colômbia e no Brasil. Anthony Kettle, gestor de portfólio sênior da RBC Bluebay Asset Management, também destacou que o carry trade em mercados emergentes continua atraente, mas cada vez mais seletivo. Ele recomendou focar em títulos de alto rendimento com políticas confiáveis e saldos externos sólidos.
Por outro lado, algumas operações de carry trade que antes eram lucrativas estão enfrentando pressão. O Bank of America e o Barclays, por exemplo, abandonaram recentemente suas posições otimistas em relação à lira turca, preocupados com as consequências do conflito no Irã, dado que a Turquia é um importador de petróleo. Em resumo, o carry trade está se recuperando em meio a um cenário de alta nos preços do petróleo e expectativas de taxas de juros elevadas, com o real e o rand se destacando como opções atrativas para os investidores.
No entanto, a cautela é necessária, pois os riscos políticos e as incertezas globais ainda podem impactar essa estratégia.