A política tarifária do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é aparentemente uma estratégia de revitalização econômica. No entanto, essa abordagem pode não ter os resultados esperados, podendo levar a um cenário econômico adverso ao que ele deseja. Em sua visão, Trump busca reverter a globalização e fortalecer a economia americana por meio da implementação de tarifas. Porém, especialistas advertem que essa estratégia pode resultar em pressões inflacionárias e na perda de influência econômica dos EUA, à medida que a globalização se desloca para fora do país.
As tarifas impostas por Trump têm como alvo não apenas nações adversárias, mas também aliados, como a Dinamarca, que foi chamada a vender a Groenlândia, e o Panamá, instado a devolver o Canal ao controle americano. Além disso, ele pressiona o México e o Canadá para que coíbam a migração e o tráfico de drogas nas fronteiras. Contudo, essas medidas podem gerar apenas encenações midiáticas, sem trazer resultados efetivos nas relações internacionais.
A história das tarifas nos EUA remonta ao presidente McKinley, que em 1890 instituiu políticas de substituição de importações. Desde então, esse tipo de política foi adotada em várias ocasiões, incluindo por países em desenvolvimento, como o Brasil, a partir da década de 1930. A visão de Trump de tornar os Estados Unidos 'grandes de novo' através de um retrocesso nas políticas econômicas parece ser um caminho fadado ao fracasso. Ele imagina que essa reversão irá forçar empresas a relocalizar suas fábricas, mas essa ideia ignora a complexidade da economia atual.
Atualmente, a noção de uma 'economia nacional americana' é, na verdade, mais abstrata do que concreta. Por exemplo, a produção de um iPhone envolve cadeias de suprimentos que conectam dezenas de países. As novas tarifas sobre alumínio e aço não irão ressuscitar a indústria siderúrgica dos EUA, mas sim gerar altos índices inflacionários. A indústria automobilística americana, que é verdadeiramente 'nacional', depende igualmente de cadeias de suprimentos que cruzam as fronteiras do México e do Canadá, e as tarifas propostas por Trump ameaçam desestabilizar o mercado de automóveis, elevando os preços para os consumidores.
Trump vê o comércio sob uma perspectiva mercantilista, onde uma balança comercial superavitária seria indicativa de sucesso. Essa visão ultrapassada resulta em políticas tarifárias contra países com os quais os EUA possuem déficits comerciais significativos, como China, União Europeia, México e Canadá.
A tentativa de corrigir esses déficits comerciais pode provocar um terremoto econômico global com consequências graves para todos os envolvidos, especialmente para os próprios Estados Unidos. Ao contrário do que Trump acredita, a prosperidade americana depende, em parte, de seu déficit comercial, sustentado pela função do dólar como moeda global. Para os EUA, este intercâmbio deficitário é sinônimo de sucesso, pois garante o alto poder de compra de seus cidadãos.
O movimento que Trump representa é uma reação a uma modernidade globalizada. Em termos geopolíticos, ele busca desmantelar as instituições multilaterais que foram estabelecidas após a Segunda Guerra Mundial, na esperança de restaurar um cenário mundial em que as potências negociam esferas de influência. Economicamente, sua intenção é destruir a teia da globalização e reiniciar uma economia nacional que não esteja exposta à concorrência externa.
Embora ele possa alcançar o primeiro objetivo ao beneficiar países como China e Rússia, o segundo é uma meta utópica e regressiva. A globalização não é dependente exclusivamente do mercado americano. A aplicação radical de tarifas não resultará em desglobalização, mas em um realinhamento da globalização fora dos EUA, resultando em uma diminuição expressiva da influência econômica americana.
A retórica de Trump sobre o declínio dos Estados Unidos pode, paradoxalmente, ser o que alimenta essa marcha rumo ao declínio econômico que ele temia. Sua idolatria pelas tarifas pode acabar se voltando contra a própria economia americana, criando um contexto de instabilidade e vulnerabilidade em um mundo cada vez mais globalizado.