A recente decisão da Europa de aumentar os investimentos em defesa resultou em um dia de recordes nas bolsas do continente. As ações das empresas do setor de defesa dispararam, refletindo uma nova dinâmica de mercado em resposta à instabilidade política.
Nesta segunda-feira, o índice FTSE 100 da Bolsa de Londres alcançou seu maior patamar desde sua criação em 1984, com quase 9.000 pontos. A BAE Systems, uma das principais fabricantes de armamentos, registrou uma impressionante alta de 14,3% em suas ações.
A BAE é a sexta maior empresa de defesa global, sendo a primeira fora dos Estados Unidos no ranking do SIPRI (Instituto Internacional de Estudos da Paz de Estocolmo), com uma receita anual estimada em US$ 30 bilhões (cerca de R$ 176 bilhões). O setor militar acumulou uma valorização de 36% na Bolsa londrina neste ano.
Essa tendência positiva foi observada em toda a Europa. A Rheinmetall, a maior fabricante de defesa da Alemanha, teve suas ações aumentadas em 15%. A companhia italiana Leonardo viu suas ações crescerem 17,3%. Na França, as ações da Thales incrementaram-se em 16,7%, enquanto a sueca Saab apresentou uma alta de 11,6% e a norueguesa Kongsberg subiu 14,4%.
O índice Stoxx Europe Aerospace and Defence, que mede o desempenho de 600 empresas do setor em diversos mercados europeus, registrou o maior aumento em um único dia desde 2020, com alta de 8%, acumulando mais de 30% em valorização até agora neste ano.
Essa euforia nos mercados foi impulsionada pela nova realidade geopolítica decorrente do retorno de Donald Trump à Casa Branca e a recente troca de farpas entre o presidente estadunidense e o presidente ucraniano Volodimir Zelenski, evento que capturou a atenção mundial na sexta-feira passada (28).
Durante a visita de Zelenski a Trump, o ucraniano visava consolidar um acordo sobre exploração mineral, que poderia, segundo ele, afastar os EUA de Putin. No entanto, Trump demonstrou alinhamento com a visão russa a respeito da invasão da Ucrânia em 2022 e iniciou conversas de paz que não envolveram Kiev nem seus aliados europeus.
Essa situação teve repercussões negativas, resultando em um confronto entre Trump e seu vice, J.D. Vance, que acabou por humilhar Zelenski publicamente. O presidente ucraniano saiu da Casa Branca sem firmar nenhum acordo e encontrou um clima hostil, onde Trump insinuou que Zelenski poderia voltar apenas “quando estivesse pronto para a paz”.
Com a Europa alarmada diante das posturas de Trump — que historicamente não teve um bom relacionamento com o continente durante seu primeiro mandato (2017-2021) —, observa-se uma crescente pressão para que os países europeus aumentem seus orçamentos militares. Isso se torna ainda mais relevante considerando a histórica aversão de Trump à OTAN, a aliança militar criada em 1949 para conter a expansão soviética.
A OTAN já havia enfrentado uma crise de identidade, sendo chamada de “morte cerebral” pelo presidente francês, Emmanuel Macron. O governo de Joe Biden, que sucedeu Trump em 2021, conseguiu restabelecer os laços transatlânticos, mas foi a guerra na Ucrânia que reacendeu o senso de urgência entre os aliados.
Após o início do conflito, os países europeus começaram a revisar e a aumentar seus gastos militares, uma tendência que se agravou desde a anexação da Crimeia em 2014. Dados do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos mostram que os aliados da OTAN dobraram seus investimentos em defesa desde então.
Na última década, apenas três dos 28 membros da OTAN alcançavam o índice de 2% do PIB em gastos com defesa, conforme estipulado como meta. Atualmente, 24 unidades de 32 membros cumprem essa meta. Apesar disso, o gasto total da Europa ainda é inferior ao da Rússia, considerando a paridade do poder de compra, com um total próximo de US$ 400 bilhões (R$ 2,3 trilhões).
A volta de Trump ao poder trouxe um reforço nas exigências para que a Europa aumente seus gastos, atingindo a cifra de 5% do PIB. Esse pedido, de fato, é considerado irrealista; a Polônia, o país membro da OTAN que mais investe, destinou em 2024 cerca de 4,12% do seu PIB para defesa.
Os Estados Unidos mantêm a maior força militar do mundo, respondendo por 39,4% do gasto mundial em defesa, enquanto, somados, os aliados da OTAN correspondem a 22,1%. Em termos de PIB, esses aliados investem em média 3,4%.
As ameaças de Trump em retirar o apoio militar a Kiev pressionam os países europeus a aumentarem seus gastos caso queiram continuar apoiando a Ucrânia na luta contra a Rússia. Vance, por sua vez, afirmou em um discurso em Munique que a presença militar dos EUA na Europa, que conta com mais de 60 mil militares desde o pós-guerra, não é garantida a longo prazo.
Assim, líderes europeus se reuniram em Londres no último domingo (2) para discutir um aumento nos investimentos em defesa, com um projeto que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou que será apresentado na terça-feira (4).
O primeiro-ministro britânico Keir Starmer já havia revelado planos de elevar os gastos de 2,3% do PIB para 2,5% em 2027 e até 3% até o final da década. Macron também anunciou a compra de mais 30 caças franceses Rafale e destacou a disponibilidade de suas forças nucleares para a defesa europeia.
Embora essa dinâmica tenha gerado otimismo nos mercados, é importante ressaltar que a indústria de defesa europeia, apesar de seus avanços, ainda não possui a mesma capacidade produtiva que a americana, tendo falhado em cumprir metas de fornecimento de munições à Ucrânia.
Até o momento, as empresas americanas têm sido as mais beneficiadas pela guerra, particularmente no que se refere ao aumento na demanda pelo caça de quinta geração F-35, que se firmou como padrão no continente. Contudo, com um maior investimento e vontade política, esse cenário pode vir a mudar no futuro.
O futuro premiê alemão, Friedrich Merz, expressou apoio à ideia de estabelecer um fundo europeu para aumentar os gastos em defesa. A Alemanha, atualmente enfrentando um dos períodos de estagnação econômica mais sérios de sua história, possuía muito a ganhar com essa medida, dada que a Rheinmetall é a principal fabricante de tanques e veículos blindados da Europa.