Impacto do Financiamento em PACs de AI nas Eleições Americanas
Os super PACs voltados para a inteligência artificial (IA) estão prestes a reconfigurar o cenário político nas eleições dos Estados Unidos. Com um fluxo maciço de recursos sendo direcionado tanto para a regulamentação da IA quanto para sua defesa, o que se avizinha pode ser uma das campanhas eleitorais mais insólitas até então.
Uma nova entidade chamada Public First foi criada com o objetivo de contrabalançar o investimento de grupos a favor da IA, como o Leading the Future. De acordo com o New York Times, essa nova organização tem como meta arrecadar cerca de 50 milhões de dólares para apoiar PACs democráticos e republicanos que se opõem à regulamentação da IA, como o Jobs and Democracy PAC e o Defending Our Values PAC.
Entre as figuras proeminentes ligadas à Public First estão Jack Clark, cofundador da Anthropic, Pierre Omidyar, fundador da eBay, e Dustin Moskovitz, cofundador do Facebook. Um PAC, ou comitê de ação política, possui limitações legais quanto à arrecadação de contribuições para influenciar resultados eleitorais. Já um super PAC é um comitê independente que pode levantar quantias ilimitadas, dado que não coordena diretamente com campanhas eleitorais. Como consequência, os super PACs frequentemente promovem anúncios negativos contra candidatos adversários, sem a necessidade de coordenação direta para beneficiar os candidatos aliados.
Essa dinâmica está sendo claramente influenciada pela existência do PAC favorável à IA, com um montante impressionante de 100 milhões de dólares em caixa quando sua criação foi revelada. Os principais financiadores incluem Greg Brockman, cofundador da OpenAI, Marc Andreessen da Andreessen Horowitz, e Joe Lonsdale, cofundador da Palantir. O objetivo do Leading the Future é apoiar candidatos que se opõem à regulamentação da IA.
Os valores astronômicos envolvidos não são inéditos, mas estão longe do comum para campanhas de negócios e interesses especiais nos EUA. Para contextualizar, o PAC dos Trabalhadores Automotivos arrecadou 15.259.386 dólares para o ciclo eleitoral de 2024, enquanto a indústria de petróleo e gás doou 13.895.000 dólares a super PACs nesse mesmo período. O poder econômico que os PACs de IA estão tentando alcançar é comparável ao super PAC de Donald Trump, que arrecadou 177 milhões de dólares até agosto deste ano. Assim, a movimentação de recursos da IA promete moldar a política para esta nova era tecnológica.
Um exemplo prático da influência dos PACs é a hostilidade recente dirigida ao assembly member Alex Bores, um legislador em Nova York que defende a regulamentação da IA. Bores, conhecido por ser o patrocinador de uma proposta que exige que as empresas de IA ajudem a prevenir os “danos críticos” associados aos modelos de IA, encontrou resistência significativa de financiadores da Califórnia. O Leading the Future anunciou que gastaria milhões para impedir que Bores conseguisse uma cadeira no Congresso. O legislador comentou sobre a pressão recebida, enfatizando que "a oposição vem de uma minoria específica do Vale do Silício, que acredita que não deve haver regulamentação de IA."
A crescente influência de PACs desconcertantes levanta questões sobre a continuidade de um sistema político saudável. Como a Public First promove uma abordagem bipartidária, ela poderá apoiar candidatos com agendas bem diferentes, refletindo a falta de clareza ideológica entre os grupos. Para muitos, essa diversidade política pode parecer um alívio. Contudo, o que se observa é a materialização de titãs financeiros com visões conflituosas que, com o respaldo da promessa de um futuro dominado pela IA, podem ofuscar a política tradicional.
O que está por vir nas eleições americanas parece ser uma competição pública intensa entre facções anônimas, que, em grande parte compostas por bilionários, utilizam a IA como pretexto para uma disputa sobre o que ainda resta do processo político. A expectativa é que a narrativa política se intensifique, e esteja longe de ser uma corrida tranquila. Os desafios que surgem podem muito bem ser ainda mais severos do que os já enfrentados.