Tragédia em João Pessoa: jovem morto por leoa tinha histórico de abandono
Gerson de Melo Machado, aos 19 anos conhecido como Vaqueirinho, perdeu a vida em uma situação trágica que expõe as falhas do sistema de saúde e assistência social na Paraíba. Ele foi atacado por uma leoa no Parque da Bica, em João Pessoa, em um episódio que evidenciou as consequências do abandono e da falta de suporte psiquiátrico.
A história de Gerson é marcada por uma cascata de descasos e dificuldades. Diagnosticado tardiamente com esquizofrenia, ele enfrentou várias internações e esteve em um ciclo de negligência por parte do Estado e da sociedade. A conselheira tutelar Verônica Oliveira destacou a situação delicada do jovem, que manifestava constantemente comportamentos de risco, como tentar se aproximar de um animal selvagem.
Gerson passou a maior parte de sua vida sem suporte familiar. Desde muito novo, ele já mostrava um histórico de problemas. A mãe, que também enfrentava problemas psiquiátricos, foi destituída do poder familiar, e Gerson não teve o suporte que precisava, tendo sido submetido a sucessivas internações e acolhimentos que frequentemente não duravam.
No entanto, as evidências de dificuldades em seu tratamento psiquiátrico e social se tornaram mais alarmantes com o tempo. Um laudo obtido em 2023 apontava traços de comportamento disjuntivo e oscilação de humor, mas a esquizofrenia como diagnóstico só foi confirmada após sua tragédia. A falta de acompanhamento e a burocracia da Justiça também foram fatores que contribuíram para sua vulnerabilidade, com o jovem tendo liberdade limitada e sofrendo consequências graves.
Aos 18 anos, Gerson viu-se expulso de abrigos e passou a viver nas ruas, onde se tornou vulnerável a influências negativas. A cidade não conseguiu protegê-lo, e a sua situação se agravou. Registros mostram que ele foi detido diversas vezes e apenas buscava auxílio por meio de comportamentos autodestrutivos. O desejo de estar internado era uma constante, embora a Justiça e os serviços de saúde não oferecessem uma solução eficaz durante sua vida.
O episódio de sua morte levantou questões sobre a responsabilidade do Estado e a eficácia do sistema atual de saúde mental. Gerson, em sua trajetória, exemplificou a falha em garantir direitos básicos a um jovem em situação de vulnerabilidade. Especialistas apontam que a falta de investimento em prevenção e tratamento adequado nas redes de saúde psiquiátrica é um problema crônico no Brasil, que leva a tragédias como a vivida por Gerson.
A reforma na psiquiatria de 2001, que buscou um modelo mais contemporâneo de tratamento, pode ter sido um passo positivo, mas na prática o sistema ainda não fornece o suporte necessário para que indivíduos como Gerson possam ser tratados corretamente e integrados à sociedade.
Gestores públicos e especialistas afirmam que, para que tragédias como esta não se repitam, é preciso um olhar mais aprofundado para a saúde mental e um comprometimento das políticas sociais. O desafio está não apenas em criar dispositivos legais, mas em garantir que sejam efetivamente implementados e que todas as pessoas, particularmente aquelas em situação de vulnerabilidade, tenham acesso aos cuidados que merecem.
Atualmente, após o incidente, a leoa Leona, envolvida na tragédia, retornou ao seu recinto no zoológico, que permanece fechado enquanto a Polícia Civil investiga as circunstâncias da morte de Gerson. O caso levanta ainda mais a necessidade de discussões sobre a segurança e o cuidado não apenas com os animais, mas também com seres humanos que, como Gerson, merecem respeito e dignidade em suas vidas.