Pressão da Europa sobre a Ucrânia para conter migração juvenil
A Alemanha, Polônia e Chequia têm manifestado preocupações em relação à crescente emigração de jovens ucranianos para seus países. Esses três estados se tornaram os maiores destinos para os cidadãos ucranianos desde o início da invasão russa em fevereiro de 2022. As autoridades desses países instaram Kiev a adotar medidas para conter essa crise demográfica, que pode ameaçar tanto a defesa da Ucrânia quanto seus esforços de reconstrução.
O chanceler alemão, Friedrich Merz, destacou a urgência da situação em uma conversa com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, solicitando que ele garantisse que jovens homens não continuassem a emigração para a Alemanha. “Essas pessoas precisam servir a seu país, onde são mais necessárias”, afirmou Merz.
A Comissão Europeia também relatou um aumento significativo no número de pedidos de asilo de ucranianos, especialmente após a decisão de Zelensky, em agosto, que permitiu que homens entre 18 e 22 anos deixassem o país. Essa mudança tinha como objetivo facilitar a educação no exterior, mas acabou resultando em uma fuga de jovens que temem ser recrutados.
Os dados da Comissão Europeia revelam que, enquanto o número de mulheres solicitando refúgio diminuiu em 7% em outubro, o de homens aumentou em mais de 6%. O destino mais procurado por esses jovens é a Alemanha, atraídos pelas facilidades oferecidas pelo governo alemão aos refugiados da guerra, cuja procura aumentou em dez vezes desde agosto.
Com 1,2 milhão de refugiados ucranianos recebidos até agora, a Alemanha ocupa o primeiro lugar na Europa. A Polônia segue com quase um milhão, mas se incluídas as cifras de ucranianos que já residiam no país antes da guerra, o total chega a 1,6 milhões. O presidente polonês, Karol Nawrocki, expressou preocupações sobre o número de refugiados e renovou um decreto que oferece subsidios a ucranianos em situação de vulnerabilidade até março de 2026. Nawrocki frisou que, embora a minoria nacional ucraniana deva ser tratada respeitosamente, ela deve ter os mesmos direitos que outras minorias no país.
Na Chequia, 400 mil ucranianos solicitaram refúgio, e o governo reportou que o influxo de refugiados dobrou nos últimos meses. O novo governo, liderado pelo primeiro-ministro Andrej Babis, tem planos de limitar os subsídios concedidos a migrantes ucranianos.
As lideranças da direita populista na Europa aproveitam a situação de migração ucraniana para se beneficiar politicamente, mas também reconhecem, junto ao governo alemão, que a Ucrânia deve combater a perda de população para garantir sua própria sobrevivência. A Comissão Europeia já havia solicitado em junho que os estados-membros da UE implementassem programas para incentivar o retorno voluntário de ucranianos ao seu país.
Desastre demográfico
A situação demográfica na Ucrânia é alarmante. A guerra intensificou uma tendência que começou com a desintegração da União Soviética e que, segundo especialistas, tende a se agravar. Antes da invasão russa, a população da Ucrânia era de 41 milhões; desde então, o país perdeu mais de nove milhões de habitantes, cerca de 21% de sua população, conforme dados do Fundo Monetário Internacional, que agora estimam a população em 32 milhões.
Vénjamin, um dentista de 30 anos, cruzou ilegalmente a fronteira da Ucrânia com a Romênia e se dirigiu para a Alemanha devido à demanda por profissionais médicos. Ele destacou que ao cumprir os requisitos dos cursos de integração e língua alemã, há suporte financeiro disponível para refugiados. Uma pesquisa realizada pelo portal de emprego Robota UA revelou que 71% das empresas que contratam na Ucrânia relatam perda significativa de trabalhadores menores de 23 anos, com mais de 150 mil homens abandonando o país desde setembro.
O futuro incerto
A capacidade da Ucrânia de se recuperar após a guerra é um tópico debatido entre especialistas. O Instituto de Estudos Demográficos Mijailo Ptuja prevê um futuro sombrio, estimando que apenas 30% dos expatriados retornarão, uma queda em comparação com suas previsões anteriores de 60%.
Por outro lado, uma pesquisa recente do centro de estudos demoscópicos Gradus revelou que 64% dos ucranianos deslocados desejam retornar a seu país no futuro. A principal motivação para o retorno é a nostalgia (69%), enquanto a qualidade de vida no exterior (77%) tem sido o principal motivo para permanecer fora.
A maioria dos refugiados consiste em mães com filhos e jovens, ou seja, pessoas com maior potencial de se adaptar a uma nova vida fora de um país ameaçado pela guerra. Dos 5,3 milhões de ucranianos que fugiram para a União Europeia desde fevereiro de 2022, 40% são menores de idade. Isso gerará complicações, já que quanto mais tempo os menores passarem fora da Ucrânia, mais difícil será o retorno familiar.
O Banco Nacional da Ucrânia fez atualizações desoladoras nas previsões de retorno, prevendo que o número de ucranianos que retornariam entre 2026 e 2027 poderia chegar a apenas 300.000, uma diminuição significativa em relação às estimativas anteriores.
Nova onda após a guerra
A situação atual é um indicativo do que pode ocorrer quando a lei marcial for suspensa, permitindo que centenas de milhares de homens tentem sair do país para se reunir com suas famílias no exterior. A especialista Libánova previu que pelo menos um milhão de homens poderão deixar a Ucrânia assim que a guerra terminar.
Aliona Sorocka, residente na Catalunha, comentou que, apesar de não ter observado um aumento no número de homens ucranianos em sua região, teme que, quando a liberdade de movimento for retomada, a Ucrânia ficará sem homens em idade ativa e de serviço militar. “O êxodo será massivo. Eles precisam reconstruir suas vidas”, afirmou.
Sviatoslav, que deixou a Ucrânia em 2023, vive em Portugal e demonstrou um desejo de retornar, embora enfatizasse que a decisão dependerá de muitos fatores, especialmente o desfecho da guerra. Enquanto isso, Vénjamin expressou que, no seu caso, voltar não está nos planos, refletindo a incerteza que permeia o futuro da Ucrânia e de seus cidadãos.