Investigação da Polícia Civil acirra tensões entre João Campos e Raquel Lyra
A ação da Polícia Civil de Pernambuco em monitorar o secretário de Articulação Política do Recife, Gustavo Monteiro, intensifica o atrito entre o prefeito João Campos (PSB) e a governadora Raquel Lyra (PSD). A administração municipal vê a operação como um "uso eleitoral" e uma violação de princípios éticos, já a Secretaria de Defesa Social a defende como legal devido a uma denúncia anônima.
Esse novo capítulo na política pernambucana surge em um momento crítico, pois ambos os líderes se preparam para um embate nas eleições estaduais de outubro. O conflito aponta para uma divisão acentuada, com Campos afirmando que a investigação é uma tentativa de espionagem política. O governo de Raquel Lyra rebate, argumentando que a operação foi iniciada pela necessidade de investigar uma possível corrupção.
Os detalhes da investigação revelam a abrangência da vigilância. Monteiro foi monitorado de agosto a outubro de 2025. Os policiais civis o seguiram em sua rotina diária, reportando-se em um grupo de mensagens onde compartilhavam fotografias e informações sobre seus movimentos. Uma das mensagens classificava Monteiro como "alvo da missão", ressaltando a natureza bem planejada da operação.
Além disso, o uso de um equipamento rastreador no veículo associado ao secretário, e seu irmão Eduardo, levanta questões sobre os limites da legalidade na investigação. A instalação do rastreador ocorreu em setembro, quando Eduardo foi visto realizando compras. Mensagens obtidas durante a investigação indicam um monitoramento profundo da rotina do secretário, que entra e sai rapidamente da prefeitura.
De acordo com a Polícia Civil, a operação "Nova Missão" foi acionada após uma denúncia anônima sobre supostos pagamentos de propina a um servidor público. Contudo, a falta de evidências substanciais resultou na não abertura de um inquérito formal. "Denúncias anônimas não autorizam a instauração imediata de inquérito policial", disse o órgão em nota, enfatizando que qualquer diligência inicial foi uma prática padrão.
Em resposta, o secretário de Defesa Social, Alessandro Carvalho, defendeu que a conduta da Polícia Civil foi adequada e dentro da legalidade. Segundo ele, a instalação do equipamento de rastreamento não necessitou de autorização judicial. A reação da prefeitura, entretanto, foi de repúdio, classificando a ação como um uso inadequado da força policial com fins políticos: "Caracteriza uma conduta ilegal, inconstitucional e imoral".
Eduardo Trindade, advogado de Monteiro, solicitou à Polícia Civil uma cópia do processo, questionando a formalidade da investigação. "O que queremos saber é se a investigação foi formal ou informal", destacou o advogado, ressaltando a necessidade de um boletim de ocorrência para iniciar qualquer investigação adequada.
A crítica à atitude da Polícia Civil veio também de parlamentares ligados a Campos. A deputada Maria Arraes (Solidariedade) apontou a ação como "inadmissível" e um ato de espionagem. O deputado Sileno Guedes, por sua vez, afirmou que a Polícia Civil tem sido usada como uma ferramenta para perseguir adversários políticos.
A gravidade da situação sinaliza um clima de crescente desconfiança nas relações políticas em Pernambuco, onde o embate entre Campos e Lyra pode marcar a pauta eleitoral dos próximos meses, afetando o cenário político no estado.