Balcázar assume presidência do Peru e desarticula rótulos ideológicos
O novo presidente do Peru, José María Balcázar, foi eleito em um ambiente de complexas manobras políticas e desentendimentos entre as forças de direita, que se mostram fragmentadas. Ao assumir o cargo no dia 18 de fevereiro, Balcázar declarou que as categorias ideológicas, como esquerda e direita, "pertencem ao século XVIII", indicando uma ruptura com as tradicionais divisões políticas.
Balcázar foi eleito após uma vitória apertada no Congresso, onde recebeu 46 votos contra 43 de sua oponente, María del Carmen Alva. Em uma segunda rodada, ele ampliou sua vantagem, derrotando Alva por 60 votos a 46. A margem estreita e o caráter secreto da votação alimentaram especulações sobre acordos ocultos entre os partidos.
A análise inicial da vitória de Balcázar frequentemente apresenta a eleição como um triunfo da esquerda. No entanto, muitos especialistas argumentam que, na realidade, essa escolha é insignificante quando observamos a crescente importância das alianças e conveniências, mais do que a pureza ideológica.
As principais forças de direita, como o Fuerza Popular e o Renovação Popular, se encontraram em lados opostos. O Fuerza Popular, que representa o legado de Alberto Fujimori, manifestou apoio tardio a Balcázar, enquanto o Renovação Popular já havia se alinhado com Alva. Essa situação gerou desconfiança entre os eleitores e colaboradores políticos.
Edgar Reymundo, outro candidato à presidência, retirou sua candidatura devido à falta de apoio. A eleição, marcada pela troca de acusações e ataques nas redes sociais, expôs as divisões profundas dentro do Parlamento peruano. Keiko Fujimori, uma figura proeminente do Fuerza Popular, lamentou a vitória de Balcázar, classificando o dia como "triste para o país". Ele enfatizou que sua vitória simboliza um retorno da esquerda radical ao poder.
A complexidade da política peruana se reflete em alianças inesperadas entre partidos com ideologias opostas. Nos últimos anos, o Fuerza Popular e o Perú Libre colaboraram em decisões importantes, mesmo sendo considerados opostos ideológicos. Isso levou à formulação do termo "fujicerronismo", que junta os nomes dos líderes Keiko Fujimori e Vladimir Cerrón, fundador do Perú Libre.
Outra força política que se destacou na recente eleição foi a Aliança para o Progresso, liderada por César Acuña, um empresário do setor educacional. Esse partido, conhecido por sua postura pragmática, tradicionalmente atua como uma ponte entre diferentes grupos no Congresso.
As declarações de Balcázar em sua primeira fala como presidente indicado destacam sua intenção de se afastar de rótulos ideológicos. Em entrevista à Radio Programas del Perú, ele reiterou que os conceitos de esquerda e direita são obsoletos e enfatizou que não está planejando indultar Pedro Castillo, atual presidente encarcerado, que recentemente solicitou clemência.
Essa dinâmica sugere um cálculo eleitoral mais estratégico, onde permitir a um membro do Perú Libre (partido marxista) assumir o governo em tempos difíciles pode fortalecer a associação entre a esquerda e a ineficácia, especialmente em uma época que precede as próximas eleições, programadas para 12 de abril.
A eleição de Balcázar, portanto, reflete não apenas uma decisão política, mas sim um complexo jogo de interesses e conveniências, onde alianças podem ser formadas e desfeitas a qualquer momento, transformando a política peruana em um tabuleiro de xadrez onde a estratégia se sobrepõe ao idealismo.

