O mercado imobiliário em crise: o dilema da habitação na Espanha
A escassez de habitação na Espanha levanta questões cruciais para o futuro econômico do país. Nos últimos dias, a imprensa econômica destacou a Espanha como o destino mais atrativo da Europa para investimentos imobiliários, superando Londres e Berlim. Embora isso indique um apetite crescente por parte de investidores internacionais, a realidade é mais dura: o preço dos aluguéis subiu 14,72% no último ano, quase cinco vezes mais que a inflação.
A relação entre a atração de investimentos e a escassez habitacional é clara. A alta demanda por imóveis eleva os preços, mas essa realidade esconde uma ameaça silenciosa que pode afetar o crescimento econômico a longo prazo. A Espanha tem experimentado um crescimento significativo do PIB, especialmente impulsionado pela imigração. Contudo, esse aumento demográfico demanda a criação de novos lares, o que se depara com uma oferta extremamente limitada.
A crise no setor imobiliário é o resultado de muitos anos de inatividade e uma tumultuada história econômica. A transição de uma bolha imobiliária para uma paralisia duradoura deixou marcas profundas, resultando na perda de mão de obra e na degradação do setor. As construtoras enfrentam dificuldades para encontrar trabalhadores qualificados, enquanto um sistema administrativo excessivamente cauteloso atua como um obstáculo, tornando a gestão de projetos habitacionais um verdadeiro labirinto burocrático.
Outro fator complicador é a fragmentação das políticas habitacionais. Na Espanha, a habitação não é abordada como uma política de Estado, mas sim como um mosaico de 17 políticas autônomas. Essa divisão impede a criação de uma estratégia unificada que poderia facilitar a construção e a industrialização no setor imobiliário.
A moradia não é apenas um ativo, mas sim uma infraestrutura essencial para a economia. A escassez de habitação tem um efeito sobre a produtividade, atuando como um imposto sobre os talentos que poderiam se concentrar nas cidades mais inovadoras. Se viver em grandes centros como Madrid e Barcelona se torna inviável, perdemos a capacidade de atrair e reter talentos, impactando diretamente nosso crescimento econômico.
A questão é ainda mais crítica quando consideramos o efeito da alta dos preços na demografia do país. Em um cenário de custos elevados, o adiamento da emancipação é evidente, e isso se relaciona diretamente com a queda da natalidade. Menos moradias hoje podem resultar em uma força de trabalho reduzida amanhã, criando um ciclo vicioso que prejudica o futuro econômico do país.
O recente anúncio do governo sobre a mobilização de 23 bilhões de euros para criar 15 mil novas habitações por ano feriu a realidade do setor. Segundo estimativas, a Espanha precisa de quase 2 milhões de novos lares na próxima década para equilibrar o mercado, o que representa um déficit estrutural de 200 mil unidades anualmente. Assim, a proposta de 15 mil novas habitações parece irrisória diante da magnitude do problema.
Concluindo, é evidente que a habitação representa uma limitação estrutural para o nosso tempo. Para realmente resgatar o crescimento econômico, será necessária uma verdadeira revolução no setor habitacional. Isso implica em decisões corajosas, como a liberalização estratégica do solo e a harmonização das normas urbanísticas. Precisa-se garantir segurança jurídica para os investidores e, sobretudo, industrializar o setor para não depender de uma mão de obra escassa.
Se não conseguirmos desbloquear a oferta de moradia, o futuro crescimento da Espanha poderá ser comprometido. É hora de encarar a realidade: uma economia que não consegue proporcionar um teto para seus trabalhadores está fadada a estagnar.

