O envelhecimento é um processo natural que traz diversas mudanças ao corpo humano, incluindo a forma como nos alimentamos. Para muitos idosos, a relação com a alimentação se transforma, e isso pode impactar diretamente a saúde. Um exemplo é o relato de Daysi Leite de Campos, uma aposentada de 77 anos, que compartilha como sua percepção sobre a comida mudou ao longo dos anos.
"Hoje eu já não consigo comer como antes. Aquela ansiedade de comer passou. Agora preciso comer mais vezes ao longo do dia, um pouco de cada vez", diz ela.
Essa mudança é comum entre os mais velhos, que frequentemente enfrentam uma redução no apetite, mesmo quando a necessidade de nutrientes, especialmente proteínas, aumenta. De acordo com a nutricionista Simone Fiebrantz, especialista em gerontologia e membro da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), "o idoso precisa de mais proteína do que antes, mas come menos por causa da mastigação, do paladar e da digestão". Com o envelhecimento, as papilas gustativas perdem sensibilidade, o que pode fazer com que muitos alimentos sejam percebidos como "sem gosto", levando a um aumento no consumo de sal e açúcar.
Além disso, medicamentos frequentemente utilizados por idosos podem provocar um gosto metálico e reduzir o apetite. A mastigação é outro fator crítico. Muitos brasileiros chegam à velhice com um histórico de acesso limitado a cuidados odontológicos, resultando em perdas dentárias e o uso de próteses inadequadas.
Daysi, por exemplo, perdeu dentes devido a bruxismo severo e teve que adaptar a consistência dos alimentos, evitando carnes e priorizando preparações mais macias, o que diminui a variedade da dieta e a ingestão de proteínas. Além disso, a digestão também se torna mais lenta com a idade. O esvaziamento gástrico demora mais, prolongando a sensação de saciedade.
Isso significa que muitos idosos podem estar ainda digerindo uma refeição quando chega a hora da próxima, resultando em uma ingestão alimentar insuficiente. A menor ingestão de proteínas, combinada com o envelhecimento e o sedentarismo, pode levar à sarcopenia, que é a perda de massa muscular. O geriatra Clineu Almada, do Einstein Hospital Israelita, explica que "quando a pessoa tem menos músculo, o corpo gasta menos energia.
O metabolismo fica mais lento, e o gasto calórico diminui". O aumento do consumo de carboidratos, que são mais fáceis de preparar e mastigar, pode agravar o desequilíbrio nutricional. O geriatra Marco Túlio Ribeiro, da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), alerta que a alimentação inadequada na terceira idade está diretamente associada ao aumento de doenças crônicas e internações.
"O excesso de carboidrato aumenta o risco de diabetes, o excesso de gordura favorece doenças cardiovasculares, e baixa proteína leva à perda de massa muscular", resume. Essa perda de massa muscular é preocupante, pois aumenta o risco de quedas, perda de mobilidade e internações prolongadas, com complicações como pneumonia e lesões por pressão. A obesidade sarcopênica, que combina excesso de peso com perda de músculo, traz riscos tanto da obesidade quanto da sarcopenia.
O cenário se torna ainda mais complicado para idosos com doenças neurológicas, como Parkinson e Alzheimer, que podem ter dificuldades para engolir, conhecidas como disfagia. A cuidadora Rita de Cássia da Silva relata que seu paciente, Tabajara Nascimento Domit, de 86 anos, que tem Alzheimer em estágio avançado, já depende de preparações pastosas. "Se estiver seca [a comida], ele não consegue.
Fica mastigando e não engole", diz ela. Para minimizar esses riscos, especialistas recomendam fracionar a alimentação ao longo do dia, garantindo pequenas refeições com proteína em todas elas. A variedade alimentar, com um prato colorido, é fundamental para garantir a ingestão adequada de vitaminas e minerais.
A hidratação também deve ser uma prioridade, já que a percepção de sede diminui com a idade. A orientação é ingerir líquidos regularmente, mesmo sem sede, incluindo água, frutas e preparações leves. Mudanças na consistência dos alimentos podem ser necessárias, mas devem ser feitas com cuidado para não reduzir a densidade nutricional das refeições.
O ideal é sempre contar com a orientação de um profissional de saúde para garantir uma alimentação adequada e equilibrada na terceira idade.