Patentes sobre ayahuasca são menos comuns que se imagina

Por Autor Redação TNRedação TN

Patentes sobre ayahuasca s�o menos comuns que se imagina - Foto: Folha de S.Paulo

A ayahuasca, uma bebida tradicional da Amazônia, tem sido objeto de interesse crescente no campo da pesquisa científica e da medicina alternativa. No entanto, a questão das patentes relacionadas a essa substância é mais complexa do que se imagina. Um levantamento recente realizado pelo especialista em propriedade intelectual Patricio Espinoza, a pedido do site Chacruna Latinoamérica, revela que as patentes sobre a ayahuasca são menos comuns do que se pensava, desmistificando a ideia de que há uma grande quantidade de apropriações indevidas do conhecimento indígena.

O estudo identificou 279 pedidos de patentes relacionados à ayahuasca, mas apenas 49 deles representam uma ameaça real de usurpação do conhecimento tradicional. Essa informação é crucial, pois o debate sobre a apropriação cultural e comercial do conhecimento indígena é um tema recorrente e delicado, especialmente no que diz respeito à propriedade intelectual. A complexidade jurídica que envolve as patentes é um dos principais fatores que dificultam a clareza sobre o assunto.

O Brasil é signatário da Convenção de Biodiversidade e do Protocolo de Nagoya, que reconhecem a importância do conhecimento tradicional associado a recursos genéticos e a necessidade de repartição de benefícios com os povos indígenas que detêm esse saber. Portanto, a questão não é apenas ideológica, mas também legal. O levantamento de Espinoza utilizou uma metodologia rigorosa, focando na ocorrência de compostos psicoativos como DMT e betacarbolinas, presentes na ayahuasca, para filtrar os pedidos de patentes que realmente configuram uma ameaça.

Dentre os 279 pedidos, apenas 62 foram considerados questionáveis, sendo que 49 ainda estão ativos. Isso significa que, embora existam registros que podem ser problemáticos, a quantidade é significativamente menor do que se pensava. Dentre os pedidos de patentes, apenas 7 estão diretamente relacionados ao uso da ayahuasca, representando 2,5% do total.

Além disso, 55 casos se referem a combinações de DMT com betacarbolinas, que visam imitar os efeitos da ayahuasca e que, por sua natureza, levantam questões sobre a apropriação de invenções indígenas baseadas em produtos naturais. Um exemplo notável é o pedido de patente da empresa AtaiBeckley, que envolve o uso de DMT para fins terapêuticos, mas não menciona a ayahuasca. Outro caso é o da empresa suíça Reconnect Labs, que, apesar de ter um pedido de patente ativo, se comprometeu a respeitar as práticas indígenas e a promover a repartição de benefícios.

A controvérsia em torno da "pílula de ayahuasca" da empresa canadense Filament Health também ilustra a complexidade do tema. Embora a empresa tenha um pedido de patente relacionado, atualmente seu foco parece estar em produtos derivados de cogumelos, o que levanta questões sobre a real intenção por trás da patente. A discussão sobre as patentes relacionadas à ayahuasca deve ser levada a sério, com um foco nas ameaças reais ao conhecimento tradicional, mas sem criar barreiras injustificáveis à pesquisa científica.

É fundamental que pesquisadores e comunidades indígenas colaborem para garantir que os benefícios das medicinas ancestrais sejam promovidos de maneira justa e respeitosa. Caso contrário, há o risco de que o campo da pesquisa seja dominado por interesses comerciais sem a devida consideração pelos direitos dos povos indígenas. Em suma, o levantamento de Espinoza traz à tona a necessidade de um diálogo mais profundo sobre a propriedade intelectual e a proteção do conhecimento indígena, especialmente em um momento em que a ayahuasca e outras substâncias psicodélicas estão ganhando destaque na pesquisa científica e na medicina alternativa.

Tags: ayahuasca, patentes, Propriedade Intelectual, conhecimento indígena, Pesquisa Científica Fonte: redir.folha.com.br