CIDH Revela Conexões Financeiras no Assassinato de Berta Cáceres
A quase dez anos do assassinato da ativista Berta Cáceres em Honduras, novos detalhes sobre a trama financeira que resultou no crime estão começando a emergir. Um relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) investiga a profundidade e o alcance das conexões financeiras por trás do ataque, que já resultou em oito condenações até o momento.
O Grupo de Especialistas Independentes (GIEI), que atua sob a CIDH, concentrou suas investigações na movimentação de recursos que financiaram o assassinato, revelando que fundos de bancos de desenvolvimento da Europa e da América Central foram utilizados para pagar os executores. Os detalhes incluem a movimentação de mais de meio milhão de lempiras (aproximadamente 25 mil dólares) em cheques, cujo rastreamento levou diretamente ao conglomerado empresarial ligado à poderosa família Atala Zablah.
Desde o início, a família Atala Zablah foi alvo de investigações, porém a justiça hondurenha não conseguiu responsabilizá-los. Daniel Atala, gerente financeiro da empresa Desa, que foi provada judicialmente como parte da trama, é um dos membros que teve a sua comunicação e ações mais detalhadamente analisadas pelo GIEI. O relatório reitera que nas semanas que antecederam o assassinato, os Atala estavam em constante vigilância e interação com outros envolventes no caso.
A história da ativista Berta Cáceres é marcada por sua resistência ao projeto de construção de uma hidrelétrica, o Agua Zarca, que ameaçava a comunidade lenca e seus modos de vida. Entre 2013 e 2014, ela liderou protestos que culminaram na retirada do apoio de financiadores, como o Banco Mundial e a Sinohydro, o que intensificou as tensões em torno do projeto. O GIEI relata como a mobilização da comunidade foi crucial para deter investimentos que poderiam custar o seu habitat.
Após a desistência dos primeiros patrocinadores, a Desa continuou o empreendimento, respaldada pelo poder estatal. O relatório revela que a análise dos processos judiciais sugere uma colaboração entre empresas e agências governamentais, incluindo ligações com as Forças Armadas. As hostilidades se intensificaram e, com isso, um ambiente propício para o assassinato de Cáceres foi criado.
O GIEI detém informações que detalham o envolvimento da família Atala em esquemas de coordenação relacionados às hostilidades contra Cáceres e outras lideranças comunitárias. Em um diálogo registrado antes do assassinato, Pedro Atala teria declarado: “Ou eles, ou nós”, refletindo a lógica subjacente à violência que culminaria no assassinato da ativista, ocorrido em 2 de março de 2016.
Os perigos enfrentados por Cáceres e seu grupo não passaram despercebidos, e a investigação do GIEI menciona que, se as autoridades hondurenhas tivessem atuado corretamente, o assassinato poderia ter sido evitado. O relatório destaca a ineficiência das investigações iniciais, as quais ficaram imersas em teorias da conspiração e desinformação.
Os dados financeiros coletados indicam que pelo menos parte do montante pago aos assassinos tem origem em recursos geridos por instituições financeiras, como o FMO e BCIE. Segundo o GIEI, uma quantidade significativa dos fundos alocados para a Desa foi desviada em manobras irregulares.
Enquanto duas pessoas contidas nas instâncias operacionais do assassinato foram condenadas, o caso de Berta Cáceres continua aberto, exigindo investigações mais profundas nas comunicações entre os executores e indivíduos da empresa Desa, incluindo o próprio Daniel Atala. O GIEI também está chamando a atenção para os vínculos de Desa com o Ministério de Segurança, sugerindo que havia uma relação ativa entre os diretores da empresa e o governo.
O relatório renovou os apelos por justiça e eficácia dos órgãos judiciais perante as evidências apresentadas, indicando que muitos vínculos ainda precisam ser elucidativos para alcançar uma resolução justa a um caso que fez ecoar vozes em favor dos direitos humanos e pela preservação de vidas dentro do ativismo indígena.