Investigação revela possíveis vínculos entre ex-vereador e empresa ligada ao PCC
A Corregedoria da Polícia Militar do Estado de São Paulo está investigando supostos policiais envolvidos em práticas irregulares de segurança para diretores da Transwolff, uma empresa de ônibus investigada por suas conexões com o Primeiro Comando da Capital (PCC). As evidências reunidas incluem troca de mensagens que citam um "chefe Milton" e tratam de pagamentos que são descritos como propina.
O sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário, preso durante a Operação Kratos, prestou depoimento em 4 de outubro de 2024, afirmando que o ex-vereador Milton Leite, do União Brasil, seria, segundo ele, o verdadeiro proprietário da Transwolff. No entanto, Cezário admitiu que não possui provas concretas para sustentar essa afirmação.
Além de Cezário, a operação resultou na prisão de outros dois policiais militares na semana passada. O sargento alegou que outros membros da diretoria da Transwolff seriam apenas "laranjas" utilizados para ocultar a verdadeira titularidade da empresa. Cezário é alvo de investigações por atuar como segurança de Luiz Carlos Efigênio Pacheco, conhecido como Pandora, e de Cícero de Oliveira, apelidado de Té, ambos descritos como diretores da Transwolff com ligações com o crime organizado. A empresa teve seu contrato cancelado pela prefeitura devido a essas suspeitas.
Os investigadores da Corregedoria descobriram que, entre 2020 e 2024, os PMs realizavam serviços de segurança para os executivos da Transwolff. O capitão Alexandre Paulino, que comandava essa equipe de segurança, já havia trabalhado como assessor militar da Câmara Municipal e atuou como ajudante de ordens de Milton Leite, quando este era o presidente da Casa.
No depoimento, o sargento Cezário indicou que Paulino assumiu a direção do grupo de segurança devido à sua relação com Leite. "Este (Milton Leite) era de fato o dono da TW e os demais diretores eram apenas laranjas. Acredito que, por isso, foi indicado o capitão PM", relatou Cezário, que ressaltou não ter provas que corroborassem suas palavras.
A Transwolff e a UPBus já estavam sob investigação desde abril de 2024, quando a Operação Fim da Linha foi deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo, devido a suspeitas de lavagem de dinheiro e favorecimento a facções criminosas. O inquérito atual também contém mensagens trocadas entre dirigentes da Transwolff e os policiais investigados, evidenciando a subordinação dos policiais ao ex-presidente da Câmara.
Em uma troca de mensagens datada de 18 de agosto de 2023, o sargento Nereu Aparecido Alves, também preso, justificou a um dos diretores da empresa o atraso em um serviço, mencionando que estavam em uma agenda e que o "celular do chefe está comigo". Ele enviou uma foto do evento com a legenda: "Inauguração da escola da mãe do chefe Milton", referindo-se a um evento de inauguração do Centro de Educação Infantil Nathalia Pereira da Silva, no M’Boi Mirim, na Zona Sul da capital. A Corregedoria identificou a sigla "QSJ" nas mensagens como um código para propina, usado pelos policiais para solicitar valores não formalizados.
Além disso, a investigação apurou que os policiais custodiavam suspeitos de ligação com o PCC ao mesmo tempo em que atendiam a demandas do então presidente da Câmara. O capitão Alexandre Paulino, que era responsável pela segurança da Transwolff, integra a Assessoria Militar da Câmara desde 2014.
Reação do ex-vereador
Em entrevista ao jornal O GLOBO, Milton Leite negou ser o proprietário da Transwolff, alegando desconhecer o sargento Cezário. "Dizer que eu sou dono é ilação. Isso é uma distorção sem fundamento. Me mostre um documento, um carro ou qualquer prova que comprove isso", declarou Leite, que afirmou não conhecer o sargento Nereu Aparecido Alves. Quanto a Paulino, o ex-vereador ressalvou que ele atua na Assessoria Militar da Câmara desde 2014 e que ações fora de suas funções são de responsabilidade dele. A defesa de Paulino declarou que ele é inocente e que a Transwolff assegurou que sempre contrata empresas de segurança regularizadas e está colaborando com as autoridades.