Explorando a trajetória de líderes espirituais femininas no Brasil
O livro "Tetragrammater — O glamour midiático das mulheres de Deus", escrito por Alberto Camarero e Alberto de Oliveira, destaca a vida e a atuação de quatro mulheres místicas brasileiras do século XX, que desbravaram os limites da religião e a relação com a mídia. Essas figuras emblemáticas desafiaram os papéis femininos tradicionais, transformando suas crenças em verdadeiras performances de massas.
As protagonistas deste relato são Yarandasã, Hilda Roxo, Santa Dica e Cacilda de Assis. Todas elas foram líderes espirituais que, por suas idéias inovadoras, atraíram multitudes e, ao mesmo tempo, enfrentaram perseguições e discriminação. Essas mulheres não apenas lideraram práticas espirituais, mas também foram tratadas de formas que realçaram uma estética e um sincretismo únicos, mesclando aspectos do esoterismo com a religião cristã popular.
No enredo do livro, Kisdes, uma das protagonistas, se destacou por sua capacidade de se apresentar como mediadora de uma energia feminina divina. Yarandasã, que viveu entre 1920 e 1969, chamava a atenção por seus rituais e sua interação com os fiéis, promovendo um culto que pulsava com a espiritualidade brasileira de forma intensa. Hilda Roxo, conhecida como a “deusa solar”, construiu uma persona envolta em mistério, ao incorporar entidades exóticas em seus rituais. A “Joana D’Arc de Goiás”, Santa Dica, ganhou notoriedade ao realizar o que muitos chamaram de uma ressurreição no próprio velório, enquanto Cacilda de Assis popularizou a umbanda através de transmissões em rádio e televisão, tornando-se uma figura de grande relevância cultural.
Um olhar crítico sobre o glamour midiático
Os autores decidem afastar o enfoque místico em suas análises e se concentram em como essas mulheres utilizaram a mídia para criar personas coletivas que desafiavam hierarquias e normas sociais. Oliveira afirma: "Nossa intenção não era fazer um livro místico ou discutir a veracidade dos poderes dessas mulheres, mas mostrar o glamour midiático que cada uma construiu ao criar sua persona". Essa perspectiva proporciona uma nova leitura sobre como essas figuras femininas eram percebidas, não apenas como líderes espiritualistas, mas também como celebridades de sua época.
A obra reflete a complexa relação entre espiritualidade e percepção pública, explorando como as quatro personagens cruzaram as barreiras do que se esperava delas como mulheres em um cenário dominado por normas de gênero severas. Carnavais, a estética, e outros elementos culturais foram integrados em seus rituais, revelando um sincretismo variado que capturou a imaginação popular ao longo das décadas.