Rodovia BR-116 se torna a mais perigosa do Brasil
A BR-116 ultrapassou a BR-101 e se tornou a rodovia mais perigosa do Brasil, de acordo com um estudo da Fundação Dom Cabral. Apesar da BR-101 ainda registrar um número maior de acidentes, a BR-116 apresenta uma severidade maior, com mais mortes e feridos graves. A via é marcada por trechos de pista simples, que aumentam a frequência de colisões frontais fatais. O estudo destaca a necessidade urgente de melhorias nas infraestruturas rodoviárias do país.
Esta é a primeira vez que a BR-116 se posiciona em primeiro lugar no ranking de perigosidade, conforme revelado pelo levantamento realizado pela Fundação Dom Cabral (FDC). Desde 2018, a FDC analisa anualmente os dados obtidos da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). Embora a BR-101 continue liderando em número absoluto de acidentes — foram 10.235 ocorrências contabilizadas em 2025, contra 8.912 na BR-116 — a inversão ocorre ao considerar taxas que ponderam o volume de tráfego e a gravidade dos acidentes. Em resumo, conduzir pela BR-116, que se estende do Rio Grande do Sul até o Ceará, tornou-se mais arriscado para os motoristas.
O estudo utiliza dois indicadores técnicos que proporcionam comparações mais justas entre rodovias com níveis de tráfego diferentes: a Taxa de Acidentes (TAc), que neutraliza o impacto do volume de veículos, e a Taxa de Severidade de Acidentes (TSAc), que atribui pesos distintos às consequências das ocorrências — 1 para acidentes sem vítimas, 6 para aqueles com feridos graves e 13 para fatalidades.
— Quando analisamos apenas o número de acidentes, a BR-101 continua na frente. Mas, quando ponderamos o resultado desses acidentes, a BR-116 passa a apresentar uma taxa de severidade maior. Isso está diretamente relacionado às características da via — explica Paulo Resende, diretor do Núcleo de Infraestrutura, Logística e Cadeia de Suprimentos da FDC.
O estudo enfatiza que a BR-116 possui centenas de quilômetros em pista simples, especialmente entre Minas Gerais e a Bahia. Nesse tipo de configuração, onde os sentidos de tráfego são separados apenas por pintura no asfalto, as colisões frontais são mais comuns e mais letais. O contraste é acentuado no mapa elaborado pela fundação. Em 2025, os trechos com maiores taxas de severidade na BR-101 estiveram concentrados na divisa entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo. Por outro lado, as áreas críticas na BR-116 formam um corredor que se inicia no Rio de Janeiro, atravessa Minas Gerais e chega até a Bahia.
— Quanto maior a extensão de pista simples, maior a tendência de colisões frontais. E esse é um dos tipos de acidentes com maior taxa de severidade. O destaque de fragilidade é Minas Gerais, mas também há trechos significativos no Rio e na Bahia. Na região Norte de Minas e em trechos baianos de pista simples, a combinação de pavimento irregular e ausência de acostamento tem se mostrado especialmente letal — ressalta Resende.
A BR-101, por sua vez, tem apresentado uma melhora consistente nos seus indicadores de segurança. Obras de duplicação realizadas nos últimos anos ampliaram as pistas, construíram viadutos e passarelas, e corrigiram traçados, especialmente no eixo Sul-Sudeste. Ao contrário, a BR-116 reflete uma dinâmica de acidentes que é influenciada por uma percepção errônea de segurança.
— Historicamente, a BR-116 é considerada a rodovia mais perigosa do país no critério de letalidade. Mesmo em anos onde não lidera em número total de acidentes, ela tende a liderar em óbitos — afirma Rodolfo Rizzotto, coordenador do programa SOS Estradas.
O estudo também indica que, no ranking de severidade proporcional de 2025, as rodovias BR-153 (Tocantins) e BR-364 (Acre) figuram entre as cinco mais críticas, além das BR-369 (Paraná), 70 (Mato Grosso) e 343 (Piauí). Estas rodovias apresentam, em comum, extensões significativas de pista simples, pavimentação em estado precário e intenso tráfego de caminhões.
— Os caminhoneiros enfrentam condições de trabalho extremamente adversas e estão desproporcionalmente envolvidos em acidentes fatais. É crucial considerar que veículos pesados respondem a cerca de 4% da frota total, mas são responsáveis por aproximadamente 50% das fatalidades nas rodovias federais — analisa Rizzotto.
Apesar da liderança negativa, a BR-116 não é homogênea. Trechos na Via Dutra, que têm melhor pavimentação e controle de acessos, apresentam baixas taxas de severidade, embora registrem um alto número de acidentes devido ao elevado volume de veículos. Em 2025, incidentes graves, como colisões frontais com várias vítimas, tornaram-se notícias em Minas Gerais e na Bahia, muitos deles em trechos da rodovia caracterizados por pista simples. Esses dados evidenciam a necessidade de intervenções urgentes e eficazes para melhorar a segurança viária no Brasil.