A mamografia, tradicionalmente utilizada para detectar o câncer de mama, pode agora desempenhar um papel crucial na avaliação do risco de doenças cardiovasculares em mulheres. Um estudo recente realizado por pesquisadores dos Estados Unidos, publicado no European Heart Journal, analisou dados de mais de 123 mil mulheres que se submeteram a mamografias de rotina e não apresentavam histórico de doenças cardiovasculares. A pesquisa revelou que a inteligência artificial (IA) pode ser utilizada para identificar depósitos de cálcio nas artérias mamárias, um sinal precoce de alterações arteriais que podem indicar um maior risco de infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
Os depósitos de cálcio nas artérias estão associados ao envelhecimento e ao enrijecimento dos vasos sanguíneos, fatores que aumentam a probabilidade de eventos cardiovasculares. A cardiologista Sofia Lagudis, do Hospital Israelita Albert Einstein, destaca que esse estudo é uma boa notícia, pois muitas mulheres se preocupam com o câncer de mama, mas não têm consciência do risco cardiovascular, que é responsável por mais mortes do que os tumores mamários. Ela observa que, por essa razão, as mulheres realizam mais mamografias do que exames preventivos para o coração.
A inclusão da mamografia na rotina de exames cardiovasculares pode fornecer informações valiosas para a identificação de sinais precoces de doença aterosclerótica. Isso poderia auxiliar na estratificação do risco cardíaco e na orientação de medidas preventivas de forma mais personalizada. No entanto, Lagudis ressalta que mais estudos são necessários para validar esses achados e adaptar a tecnologia de IA aos equipamentos convencionais de mamografia.
O cardiologista Tito Paladino, da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), acrescenta que a solicitação de uma mamografia com o objetivo primário de investigar doenças coronárias não é justificada, uma vez que existem métodos diagnósticos mais específicos para essa finalidade. Ele explica que o acúmulo de calcificação nas artérias, embora relevante, não é um indicativo direto de eventos coronários ou infarto agudo do miocárdio, mas sim uma manifestação da aterosclerose sistêmica, refletindo um processo mais amplo no organismo. A calcificação arterial é um processo cumulativo e irreversível, o que torna essencial o controle dos fatores de risco.
Lagudis recomenda que as mulheres mantenham a pressão arterial, glicemia e colesterol em níveis adequados, adotem hábitos saudáveis, como não fumar e evitar o consumo excessivo de álcool, além de seguir uma alimentação equilibrada e praticar atividades físicas regularmente. Essa atenção se torna ainda mais importante com a chegada do climatério e o avanço da idade, períodos em que a proteção hormonal diminui e o risco cardiovascular tende a aumentar. O estudo representa um avanço significativo na utilização da mamografia, que pode se tornar uma ferramenta multifuncional na saúde da mulher.
A possibilidade de prever riscos cardiovasculares através de um exame que já é amplamente realizado pode mudar a forma como as mulheres abordam sua saúde, promovendo uma maior conscientização sobre a importância de exames preventivos e a necessidade de um acompanhamento mais rigoroso dos fatores de risco cardiovascular. A integração da tecnologia de IA na mamografia pode não apenas melhorar a detecção precoce de câncer, mas também salvar vidas ao identificar riscos que muitas vezes passam despercebidos. À medida que mais pesquisas forem realizadas, espera-se que essa abordagem se torne uma prática comum, contribuindo para a saúde e bem-estar das mulheres em todo o mundo.
Além disso, a conscientização sobre a saúde cardiovascular deve ser uma prioridade nas campanhas de saúde pública, especialmente voltadas para o público feminino, que historicamente tem sido sub-representado em discussões sobre doenças cardíacas. Essa mudança de paradigma pode levar a um futuro onde a mamografia não seja apenas um exame de rastreamento do câncer, mas uma ferramenta vital na prevenção de doenças que afetam a qualidade de vida das mulheres.